quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A DOUTRINA DA PROVIDÊNCIA NO CATECISMO DE HEIDELBERG


INTRODUÇÃO
Vivemos uma espécie de vida onde seja qual for a esfera em que ela se dá vemos o toque da fragilidade. A vida é incrivelmente frágil. Olhamos para o espaço cósmico e nos deparamos com asteróides que podem se chocar com a Terra e dizimar a raça humana. Quando tiramos nossos olhos dos astros e pensamos na forma como as coisas estão dispostas no nosso planeta nos deparamos com algo assustadoramente vulnerável. Nossos continentes mais se parecem com balças que se movem lentamente mudando dia após dia a localização da chamada “terra firme”. Ambientalista tem alertado às autoridades quanto a necessidade de se manter o equilíbrio do nosso ecossistema onde se faltar uma raça na cadeia alimentar um completo desarranjo pode acontecer. Tragédias naturais estão por toda parte. Este é o mundo dos maremotos, terremotos e furacões.
Quando tiramos os olhos da ordem natural criada e os colocamos em nós descobrimos que de fato o orgulho humano é o pecado mais incongruente que existe, pois não somos senhores nem na nossa própria casa. Nosso organismo funciona à nossa revelia. Os cabelos brancos arbitrariamente aparecem, o coração subitamente para de bater, os rins tornam-se preguiçosos, tumores malignos surgem do nada e por aí vai. Em suma, o rei mais soberbo pode ter uma hemorróida, o amante mais insaciável um problema na próstata e a mulher mais vaidosa se submeter a uma mastectomia.
Crentes de todas as nações lidam todos os dias com estas ameaças. E não há fé que não seja vez ou outra sacudida pelos mais diferentes tipos de medo. Faz parte da definição de fé uma confiança inabalável, porém quando pensamos na experiência da fé no coração do crente seria crueldade dizer que não é fé aquela que tem que enfrentar a descrença. Conforme ressalta Calvino: “Conquanto ensinemos que a fé deve ser certa e segura, não podemos imaginar nenhuma certeza que não esteja manchada de dúvida, ou qualquer segurança que não seja assaltada por alguma ansiedade”.
[1]Por isto, esta sem a qual é impossível ter paz nesta espécie de exílio que é nosso planeta, precisa de ser fortalecida todo os dias. O crente é alguém que carece tanto da consciência do perdão de Deus porque é pecador, quanto necessita da certeza do cuidado divino porque é frágil.
O meu desejo neste paper é o de falar sobre a doutrina da providência à luz do Catecismo de Heidelberg. Este catecismo trata-se de uma “confissão de fé compilada em 1562 por Zacarias Ursino e Gaspar Oleviano a pedido do eleitor Frederico III, e aceito em 1563 como o padrão de doutrina do Palatinado”.
[2] Heidelberg foi a capital do Palatinado, uma importante província da Alemanha. Frederico III era uma das seis pessoas que elegiam o imperador do Sacro Império Romano. Com que propósito o Catecismo de Heidelberg foi escrito? Fred H. Klooster nos apresenta uma resposta sucinta:
O Catecismo de Heidelberg ficou pronto perto do fim de 1562 e foi submetido ao sínodo para aprovação em Janeiro de 1563. O prefácio de Frederico declara os três propósistos que esta confissão foi designada alcançar: um parâmetro para a instrução catequética, um guia para a pregação, e uma forma de unidade confessional. Ele se referia a ele como ‘um curso de instrução para os jovens em nossas escolas e igrejas, e também do púlpito para o povo comum.
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Por que falar sobre esta doutrina conforme seu registro neste catecismo? Porque Heildelberg se tornou mundialmente famoso por seu caráter eminentemente pastoral. Neste documento teologia é feita para o consolo da igreja. E no que tange a doutrina da providência, este tom pastoral é claramente mantido de uma forma simples e como não podia deixar de ser, bíblica também. Como diz Klooster:
Heidelberg é único por causa da sua estrutura e seu calor, qualidades pessoais. Os catecismos geralmente incluem quatro principais unidades: o Credo Apostólico, os Dez Mandamentos, a Oração do Senhor, e uma seção sobre os sacramentos. Os autores do Catecismo de Heidelberg estruturaram estas quatro unidades numa maravilhosa associação com o tema do conforto e três divisões: miséria, libertação e gratidão. O conforto do evangelho, redescoberto na Escritura pelos Reformadores, permeia a totalidade do catecismo.
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A fim de que conheçamos o consolo que pode ser auferido da leitura da doutrina da providência no Catecismo de Heidelberg, tenho como meta apresentar a o tema da seguinte forma: primeiro, sua definição neste catecismo. Segundo, a apresentação das diferentes espécies de ações providenciais de Deus. Terceiro, um comentário sobre o tipo de Deus que é apresentado como o responsável direto por tudo aquilo que acontece no cosmo. E por fim, uma aplicação prática da doutrina.

I- A DEFINIÇÃO DA DOUTRINA DA PROVIDÊNCIA NO CATECISMO DE HEIDELBERG.
Como Heildelberg define o sentido teológico da palavra providência? Ele apresenta a seguinte definição: “É a força toda-poderosa e presente com que Deus, pela sua mão, sustenta e governa o céu, a terra e todas as criaturas”.
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Conforme podemos ver o Catecismo de Heidelberg define a doutrina da providência à partir da onipotência de Deus. Dizer, portanto, que Deus é todo-poderoso é dizer que Ele tem completo domínio sobre a sua criação. Deus não é todo-poderoso porque pode fazer todas as coisas. Há coisas que Deus não pode fazer. Umas por irem de encontro à Sua santidade, e outras por serem inerentemente impossíveis. Deus, por exemplo, não pode mentir ou fazer um círculo quadrado. Deus não peca e não faz idiotices. É R. C. Sproul quem define o sentido de onipotência da seguinte forma:
...como um termo teológico, não significa que Deus pode fazer qualquer coisa. A Bíblia indica muitas coisas que Deus não pode fazer. Ele não pode mentir (Hb 6:18). Ele não pode morrer. Ele não pode ser eterno e criado. Ele não pode agir contra a Sua natureza. Ele não pode ser Deus e não ser Deus ao mesmo tempo e na mesma relação. Onipotência significa que Deus possui todo poder sobre sua criação. Nenhuma parte da sua criação permanece do lado de fora do escopo do seu controle soberano”.
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Na resposta à pergunta 26 Heildelberg afirma que o exercício desta providência se dá em conformidade ao eterno conselho de Deus. Isto significa que antes de dar livre curso à Sua ação providencial no universo Deus decretou tudo aquilo que haveria de fazer. A providência significa, portanto, Deus fazendo o que quer fazer e de uma tal forma que nada do que acontece na vida escape ao Seu soberano controle. A providência é “a força toda-poderosa e presente”. O poder de Deus é presente. Heidelberg desconhece um Deus que não intervenha ininterruptamente no universo. Seu poder se manifesta a todo instante e nas mais diferentes esferas em que a vida se dá. Acontece que o poder presente de Deus é fruto de algo deliberado. Trata-se de uma coisa consciente e que segue um curso inalteravelmente estabelecido na eternidade. O que isto significa? Deus conhece a si mesmo. Sabe o que poderia fazer caso assim o tivesse determinado e o que fará por assim ter decretado. O conhecimento dos eventos futuros é certo para Deus. Ele sabé o que acontecerá porque assim o determinou. A Sua providência nada mais é do que Deus levando a efeito aquilo que decretou. Ao definir a doutrina dos decretos A. A. Hodge mostra a conexão que existe entre ambas as doutrina:
O decreto de Deus é Seu propósito soberano, eterno, imutável, santo e sábio, abrangendo ao mesmo tempo todas as coisas que existiram, existem agora e em qualquer tempo existirão, com suas causas, condições, sucessões e relações, e determinando sua futurição certa.
[7]

A ordem apresentada por Heidelberg é simples e lógica. Primeiro um Deus auto-existente, que em segundo lugar decreta tudo aquilo que irá acontecer, e assim do nada cria todas as coisas, para por fim sustentar e governar tudo o que criou conforme o seu decreto: “Creio que o eterno Pai de nosso Senhor Jesus Cristo criou do nada o céu, a terra e tudo o que neles há e ainda os sustenta e governa por seu eterno conselho e providência...”
O Catecismo de Heidelberg é monista. Vê o universo como tendo seu ponto de partida não numa existência dual, Deus e a matéria, mas numa única existência eterna, a saber, o próprio Deus. Isto é de fundamental importância. Isto porque em teologia se uma coisa não estiver bem fundada outra não poderá ser sustentada de forma alguma. Se há algo no universo que seja eterno tal como Deus, logo Deus não é soberano. E toda a doutrina da providência tem seu fundamento solapado, pois para Deus governar todas as coisas é óbvio que todas as coisas tem que lhe estar sujeitas. Um único átomo solto no universo fora do escopo da providência pode representar uma mudança radical no curso da história. Todos nós estamos familiarizados com pequenos acontecimentos que tiveram grandes consequencias.
Porém, consolo algum poderia ser auferido por nós se este conceito de um único ser eterno no universo e detentor de todo poder não viesse acompanhado do conceito de um Deus que nada faz sem antes haver estabelecido um plano e que é capaz de levá-lo a efeito por ser vivo. Heidelberg nos remete para a eternidade e nos traz de volta para o presente. Na eternidade nos deparamos com um Deus auto-existente, pessoal e perfeito em todos os seus atributos. No presente nos deparamos com um Deus vivo. Sua força é vista como toda-poderosa e presente. É a Confissão de Fé de Westminster que nos traz a memória o seguinte fato: Na Sua providência ordinária, Deus emprega meios; todavia, ele é livre para operar sem eles, sobre eles ou contra eles, segundo seu beneplácito”.
[8] Falando sobre este tema Bavinck declara: “Sendo o Deus vivo, ele é também o Deus operativo. Ele não pode fazer outra coisa além de trabalhar. Ele trabalha sempre (Jo 5:17). Toda a eterna vida de Deus é poder, energia, atividade”.[9]

II- OS DIFERENTES ASPECTOS DO GOVERNO PROVIDENCIAL DE DEUS.
A providência é vista no Catecismo de Heidelberg sob os ângulos clássicos em que é apresentada nas grandes obras teológicas da fé reformada, porém, sem faltar o toque pastoral a partir do destaque que é dado a conexão entre a providência e o amor de Deus.
Em primeiro lugar Heidelberg vê a providência na perspectiva da preservação da ordem criada. O que é a preservação? Berkhof responde dizendo: “A preservação pode ser definida como a obra contínua de Deus pela qual Ele mantém as coisas que criou, juntamente com as propriedades e poderes de que as dotou”.
[10] Ele é quem sustenta “o céu, a terra e tudo o que neles há”. Isto torna as leis naturais sobrenaturais também. Elas não operam mecanicamente, mas mediante o agir daquele que torna lei seu modo costumeiro de ação. Isto tem implicações para a vida de todos nós. Fazer ciência é fazer teologia, pois conhecer as leis que regem o universo é conhecer os diferentes aspectos do poder de Deus que por agir de modo uniforme permite ao homem chamar de lei aquilo que se trata de ação deliberada e pessoal. Tudo de um certa forma se torna místico. Ver uma nuvem se movimentar, um raio cruzar o céu, uma maçã cair é ver o braço de Deus na história.
Em segundo lugar, o Catecismo de Heidelberg destaca o governo de Deus na Sua providência. Aqui Deus é apresentado como quem age na vida determinando o curso de todas as coisas a fim de que estas cumpram o propósito eterno do Seu Criador. O conceito de história passa a ser teleológico como afirma Berkhof: “Pode-se definir o governo divino como a contínua atividade de Deus pela qual Ele rege todas as coisas teleologicamente a fim de garantir a realização do seu propósito”.
[11] Tudo caminha para o seu telos, ou seja, para o seu fim. Aqui vemos o segundo modo de ação de Deus na vida. O primeiro, supra mencionado fala da sua ação regular que pode ser discernida por meio da ciência. O segundo, o que em meio a Sua ação regular faz com que propósitos especiais se cumpram na vida de cada ser vivo. Esta ação embora possa ser muitas vezes discernida pelo homem, em tantas outras é absolutamente misteriosa, dasafiando as melhores mentes, exigindo humildade, pois se nos apresenta como nada teleológica. Se para conhecer a primeira é necessário antes de tudo cérebro, quanto a segunda cérebro não basta é necessário também oração.
Em terceiro lugar, Heidelberg fala do mistério da concorrência: “Porque todas as criaturas estão na mão de Deus de tal maneira que, sem a vontade dele não podem agir nem se mover”. O que vem a ser a concorrência? Mais uma vez citamos Berkhof: “Pode-se definir a concorrência como a cooperação do poder divino com todos os poderes subordinados, em harmonia com as leis pré-estabelecidas de sua operação, fazendo-os agir, e agir precisamente como agem”.
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Por que chamo mistério da concorrência? Mistério por se tratar de uma verdade supra racional. Ninguém até hoje conseguiu explicar como se dá esta relação entre seres livres e responsáveis e a ação de Deus através destas mesmas criaturas. Heidelberg não se preocupa com esta questão conforme vemos na Confissão de Westminster. Nesta procura-se destacar o fato de que “pela mesma providência, Deus ordena que elas sucedam, necessária, livre ou contingentemente, conforme a natureza das causas secundárias...”.
[13] A preocupação é a de responder a possível objeção de Deus ser no ponto de vista reformado o único agente em ação no universo. Mas, há outra mais grave. Como explicar a relação da providência com o mal? Deus seria o autor deste? Westminster responde da seguinte forma ao falar da permissão de Deus quanto ao pecado: “mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado e nem pode aprová-lo”.[14]
São temas sérios e que exigem de nós muita humildade. Humildade a fim de esperar Deus jogar mais luz sobre o saber teológico da igreja para quem sabe as gerações futuras encontrem solução para questão que até hoje temos encontrado dificuldade em responder, ou humildade para esperarmos a resposta na eternidade. O que vale destacar é o fato de que por outro lado este é justamente o tipo de universo em que queremos viver onde o homem é responsável pelas suas ações e Deus é soberano. Não somos joguetes nas mãos de Deus e não estamos entregues ao arbítrio do homem. O Judas que contribuiu para a morte do Salvador é ao mesmo tempo culpável e cumpridor do que a vontade do Senhor havia predeterrminado.
Em quarto lugar, o Catecismo de Heidelberg fala do caráter universal da providência divina. Esta providência abrange tudo: o suprimento das necessidades dos filhos de Deus “dará tudo o que for necessário para o meu corpo e minha alma”, a transformação em bênção das aparentes maldições “ele transformará em bem todo o mal que me enviar nesta vida conturbada”, e as ações livres dos homens “porque todas as criaturas estão na mão de Deus de tal maneira que, sem a vontade dele não podem agir nem se mover”. Este elemento de universalidade na providência garante com que o acaso jamais determine o curso da história: “Assim, ervas e plantas, chuva e seca, anos frutíferos e infrutíferos, comida e bebida, saúde e doença, riqueza e pobreza e todas as coisas não nos sobrevêm por acaso, mas de sua mão paternal”.

III- O DEUS DA PROVIDÊNCIA.
Tão importante quanto conhecer o sentido da palavra providência é conhecer o sentido da palavra Deus. Como disse C. S. Lewis não é a fé em Deus que nos faz confiar, mas a fé neste Deus: “Nós confiamos não porque “um Deus” existe, mas porque este Deus existe”.
[15] Heidelberg não dissocia a doutrina da providência da doutrina do ser e atributos de Deus. Quem é o Deus do Catecismo de Heidelberg?
Ele é eterno. Isto significa que Ele é o único ser independente no universo do qual todas as coisas derivam sua vida e dependem. Ele é único e não tem rival. Nada pode obstaculizar Seu caminho, pois tudo o que existe depende do Seu poder sustentador.
Ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Isto significa que Ele é um Deus relacional, pessoal e que ama. Ele é definido como Pai. Trata-se de um Deus que tem amado por toda a eternidade. Que criou porque quiz criar já que não precisava criar para amar e ser amado por força da sua existência tri-pessoal. Sua criação é fruto do seu coração transbordante de alegria. Como diz Jonathan Edwards: “Deus é um ser perfeitamente feliz, no mais absoluto e mais alto senso possível”.
[16]
Ele é um Deus que entra em aliança com o Seu povo: “Ele é também meu Deus e meu Pai, por causa de Seu Filho, Cristo”. Isto significa que seu cuidado providencial pelo Seu povo é pactual. O que Ele decretou na eternidade para a vida do Seu amado povo é resultado do Seu plano eterno de incluir sua igreja na festa de amor da Trindade. Por isto nada nos “sobrevêm por acaso, mas de Sua mão paternal” e “criatura alguma nos pode separar do amor dele”. A igreja é a comunidade daqueles que foram entregues pelo Pai ao Filho a fim de gozarem das delícias da comunhão trina para a glória de Deus. Por causa de tão glorioso plano a igreja é sempre objeto da providência especial de Deus. Ela é especial porque faz com que todas as coisas cooperem para o bem dos eleitos, o que não ocorre com o réprobo em cuja vida as coisas não cooperam para o seu bem.
Ele é “Todo-poderoso e Pai Fiel”. No seu poder Ele pode realizar tudo aquilo que no Seu amor determinou e na sua fidelidade não pode deixar de cumprir aquilo que determinou para o Seu amado povo pelo qual Seu Filho morreu. A providência amorosa pode ser dada como liquida e certa pela igreja. Seu poder é a garantia que sua fidelidade não poderá falhar e sua fidelidade é a garantia que o seu poder não nos decepcionará.
Ele é um Deus vivo. Sua força é apresentada como presente. Embora do ponto de vista da ciência a vida seja vista como frágil do ponto de vista da teologia a vida é vista como frágil na sua aparência, mas firme quanto a providência de um Deus que está presente.
Por fim, Deus por inferência só pode ser visto como um Deus sumamente feliz. Ele é felicidade eterna em si mesmo. Isto pelo fato de ao olhar para si mesmo ser o que gostaria de ser e ao olhar para a história ver que tudo o que seu amor o impele a fazer se concretizará. Mais uma vez citando Jonathan Edwards através do que talvez tenha sido seu maior intérprete, John Gerstner:
Edwards argumenta que se Deus se deleita em contemplar a beleza, Ele deve ser infinitamente feliz porque Ele contempla a si mesmo. Ele é de fato a fonte de toda a felicidade. Embora a maneira da felicidade de Deus seja essencialmente incompreensivel, a Bïblia indica que ela consiste em amor. A Trindade tem um eterno prazer em cada outro.
[17]

IV- A DOUTRINA DA PROVIDÊNCIA E SEU ASPECTO PASTORAL
O Catecismo de Heidelberg nos lembra que teologia dever ser feita para a glória de Deus, com o firme propósito de conhecer a Deus e em o conhecendo adorando-o com encanto, amor e fidelidade. Mas, não apenas isto. O saber teológico deve ter implicações pastorais também. Teologia deve trazer paz ao coração do homem e fazê-lo feliz. Não se deve fazer teologia para responder perguntas que ninguém está fazendo. A não ser que a igreja se veja na necessidade de conduzir os homens a refomular suas perguntas com o intuito de levá-los a se preocuparem com o que deveriam se preocupar. Mas, nem sempre este é o caso. Muitas vezes teólogos se esquecem que estão vivendo num mundo de horror e de pessoas que carecem de consolo bem fundamentado.
Neste documento as verdades teológicas não são vistas no abstrato. Encontramos um preocupação precípua em fazer os crentes viverem melhor à partir da assimilação da doutrina. Quais as implicações pastorais da doutrina da providência?
Em primeiro lugar Heidelberg diz que deveríamos responder a tudo isto com confiança. Esta confiança tem relação com duas dimensões da vida: o suprimento das necessidades integrais do crente e o controle sobre o curso do mal permitido pela providência a fim de que este coopere para o supremo bem do que crê. “Nele confio de tal maneira, que dará tudo o que for necessário para meu corpo e minha alma; e que Ele transformará em bem todo mal que me enviar nesta vida conturbada. Tudo isto Ele pode fazer como Deus Todo-poderoso e quer fazer como Pai fiel”.
O crente terá suas necessidades físicas e espirituais plenamente supridas por Deus. Isto não significa que todos os desejos do crente serão atendidos. Nem todo desejo corresponde à uma necessidade. Não significa também que o crente estará livre de conturbação. Ele terá que viver neste mundo que encontra-se debaixo da ira de Deus. Significa que Deus agirá de uma tal maneira na vida do eleito que tudo aquilo que é necessário do ponto de vista do corpo e da alma para o cumprimento dos amorosos propósitos eternos de Deus será graciosamente concedido pelo mesmo Deus da providência.
Heidelberg apresenta o mal como parte dos planos eternos de Deus para a vida do Seu povo. Tal como o incrédulo o crente haverá de passar por tribulações. Porém, de modo diferente do incrédulo estas mesmas tribulações funcionarão na vida do crente como o cumprimento de um plano misericordioso. O sofrimento do crente haverá de lhe ser benéfico. Deus o usará para a sua santificação, para lembrá-lo que seu lar não é aqui, a fim de ajudá-lo a discernir a vontade de Deus e torná-lo mais dependente do Seu Criador. Como nos tráz à memória Tomás de Kempis:
É de vantagem que passemos, de quando em quando, por algumas aflições e contrariedades; porque sempre fazem que o homem entre em si mesmo e reconheça que vive no exílio e não deve colocar sua esperança em coisa alguma deste mundo.
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Em segundo lugar Heidelberg estimula o crente a fazer uma leitura teleológica da vida. Todas as coisas ocorrem de acordo com um plano pré-determinado. Este plano pode incluir o que traz prazer ao crente e o que traz dor. E o louvor que sobe aos céus nos momentos de prazer deve ser feito também nos momentos de dor. Isto porque todas as coisas provém da mão paternal de Deus. Todas cumprem um propósito paternalmente estabelecido: “Assim, ervas e plantas, chuva e seca, anos frutíferos e infrutíferos, comida e bebida, saúde e doença, riqueza e pobreza e todas as coisas não nos sobrevêm por acaso, mas de sua mão paternal”. Isto significa que a história não deve ser vista somente como palco da ação de um Rei soberano, mas de um Pai amoroso. Por causa da fixação deste amor nos seus filhos é impossível ocorrer no universo qualquer tipo de coisa que direta ou indiretamente não vise o supremo bem daqueles que são tao grandemente amados.
Em terceiro lugar Heidelberg nos chama a paciência: “Para que tenhamos paciência em toda adversidade...” Certamente Heidelberg nos convida à paciência porque sem esta virtude o crente torna-se incapaz de manter a santidade na dor. Quando nos tornamos impacientes nossa preocupação maior na tribulação é aliviar a dor e não glorificar a Deus.
E em quarto lugar Heidelberg nos chama à gratidão: “...mostremos gratidão em toda prosperidade”. A gratidão é a resposta lógica de quem foi convencido pela verdade bíblica que todas as coisas que ocorrem no universo visam a glória de Deus e a felicidade do homem.

V- CONCLUSÃO
Vivemos cercados pelos mais diferentes tipos de ameaças. A vida da raça humana é caracterizada pela presença de uma aguda ansiedade. Muitos dentre os próprios filhos de Deus não conseguem encontrar descanso também. Porém, o Senhor Jesus chamou seus discípulos para uma vida livre de preocupações a fim de se preocuparem com o Reino de Deus: “Por issso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida...buscai, pois, o reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas...” (Mt 6:25-34). Como cumprir este mandamento? Somente mediante uma cuidadosa meditação sobre a doutrina da providência. Sua apresentação no Catecismo de Heidelberg cumpre um papel profundamente terapêutico na vida de um povo que é objeto de tamanhos cuidados providenciais realizados por alguém que o ama tal como um Pai. Isto é o que Heidelberg com base na Palavra de Deus diz à igreja de Cristo.


BIBLIOGRAFIA

[1] BEEKE, Joel R. A Busca da Plena Segurança. 1O ed., Recife: Editora Os Puritanos, 2003.
[2] LIVINSGTONE, E. A. Oxford Concise Dictionary of the Christian Church. Second Edition. New York. Oxford University Press, 2000
[3] KLOOSTER, Fred H. A Might Comfort. Grand Rapids. CRC Publications.
[4] Ibdem
[5] Confissão de Fé e Catecismo de Heidelberg. 1O Edição. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 1999.
[6] SPROUL R. C. Essential Truths of the Christian Faith. 4o Edição. Wheaton. Tyndale House Publishers, 1998.
[7] HODGE, A.A. Esboços de Teologia. 1o Edição. São Paulo. PES, 2001.
[8] Confissão de Fé de Westminster. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 1994.
[9] BAVINCK, Herman. Teologia Sitemática. 1o edição. Santa Bárbara dÓeste. SOCEP, 2001.
[10] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 3o Edição. Campinas. Luz para o Caminho, 1994.
[11] Ibdem
[12] Ibdem
[13] Confissão de Fé de Westminster. São Paulo. Editora Cultura Cristã, 1994.
[14] Ibdem
[15] ROOT, Jerry. MARTINDALE Wayne. The Quotable Lewis. Wheaton. Tyndale House Publishers, 1989.
[16] GERSTNER, John. The Rational Biblical Theology of Jonathan Edwards. Second Printing Orlando. Berea Publications, 1991
[17] GERSTNER, John. The Rational Biblical Theology of Jonathan Edwards. Second Printing Orlando. Berea Publications, 1991
[18] KEMPIS, Tomás. A Imitação de Cristo. 21O Edição. São Paulo. PAULUS, 1976.

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