quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

O PRAZER ESPIRITUAL


FILIPENSES 1: 23

INTRODUÇÃO

Neste versículo o apóstolo Paulo oferece uma explicação mais exata para o que havia acabado de falar nos dois versos anteriores. No versículo 21 ele menciona um ganho que haveria de obter com a sua morte. No verso 22 afirma que este ganho através da morte gerava em seu espírito uma divisão. O que o dividia por um lado era o desejo de obter esse “lucro” pela morte, e, por outro lado, o anelo de servir a Cristo.
Quando chega ao verso 23 o apóstolo Paulo explica com muita clareza o porquê da morte ser vista por ele como um lucro. Muito embora esse ganho não eliminasse o desejo de continuar servindo a Cristo em vida, por outro lado gerava uma tensão inevitável da qual o apóstolo Paulo não conseguia se livrar. Que prazer rivalizava em sua alma com o prazer de servir a Cristo e sua igreja? Ele acreditava que a morte haveria de remetê-lo para uma nova relação com Cristo. Uma comunhão que ele até então não podia experimentar. Algo incomparavelmente melhor do que a própria vida cristã.

DOUTRINA: A ALMA REGENERADA ANELA PELO PRAZER DE NATUREZA ESPIRITUAL PROPORCIONADO PELA PRESENÇA DE CRISTO.

PERGUNTA-CHAVE: O QUE É O PRAZER DE NATUREZA ESPIRITUAL ATRAVÉS DE CRISTO?

1. É O PRAZER ESPIRITUAL EXPERIMENTADO PELA ALMA REGENERADA QUANDO ESTA SE VÊ PERANTE O OBJETO DO SEU MAIOR AMOR.


Neste verso o apóstolo Paulo lança grande quantidade de luz sobre o tema antropologia. A Bíblia ensina que a existência do homem e dicotômica. O homem feito à imagem e semelhança de Deus possuiu uma alma e um corpo. O corpo é o instrumento mediante o qual a alma se expressa. Esta relação do espírito humano com o corpo tem levado ao longo dos séculos centenas de pensadores a se dedicarem à tarefa de saber como se dá este relacionamento. A questão central é: de que maneira a alma interage com o corpo?
O que o apóstolo Paulo revela nesta passagem é que a alma pode ter vida independente do corpo. Há um viver na carne (v.22), e, há um viver fora da carne. Esta é a primeira verdade sobre o estudo da antropologia cristã que aprendemos nesta passagem. Deus criou o homem corpo e espírito. E, muito embora, o corpo não possa ter vida independente do espírito, o espírito humano pode ter vida independente do corpo. O apóstolo Paulo fala de um partir da vida que é ligada ao corpo a fim de se poder alcançar uma vida estritamente espiritual e extra-mundana.
O mais importante nesta descoberta acerca da antropologia bíblica não é apenas o fato de que o espírito pode ter vida independente do corpo, mas a asserção de que o homem pode ter um prazer independente do prazer físico. O apóstolo Paulo fala de um desejo por uma experiência incomparavelmente melhor do que tudo o que esta vida pode oferecer, a ser vivida de um modo puramente espiritual.
Agostinho:
E me indagava: se fôssemos imortais e vivêssemos num perpétuo prazer do corpo, sem temor de perdê-lo, por que não seríamos felizes? Que coisa seria preciso procurar? Eu não estava percebendo que nisso consistia a minha miséria. Imerso no vício e cego como estava, não conseguia pensar no esplendor da luz e da beleza, desejáveis por si mesmas, invisíveis aos olhos do corpo e só percebidas no íntimo da alma.
[1]

Sendo assim, percebemos que existem prazeres físicos e prazeres espirituais. A Bíblia nos apresenta o homem como um ser capaz de obter nesta vida com a ajuda de Deus uma infinidade de prazeres físicos. Há promessas nas Escrituras que nos dão conta do interesse de Deus em satisfazer os desejos do corpo. Vemos estas promessas de um modo especial no Antigo Testamento.
Há prazeres, no entanto, que são de cunho eminentemente espiritual. Há o prazer estético, por exemplo. A emoção espiritual de se estar diante do que é belo. Há o prazer de cunho intelectual, que tem a ver com a alegria da descoberta da verdade. E há o prazer teológico, que corresponde ao gozo de se ver na presença do que é perfeitamente pessoal, verdadeiro e belo.
Agostinho:
De fato, nenhum espírito pôde ou poderá jamais imaginar algo melhor que tu, supremo e perfeito bem. Sendo absolutamente certo e verdadeiro que o incorruptível é preferível ao corruptível (como eu já admitia), eu poderia, caso não fosses incorruptível, atingir com o pensamento algo mais perfeito do que o meu Deus.
[2]

Um outro ponto merece destaque. O texto nos fala de um homem que passou por uma poderosa obra de transformação pessoal (At 9), a ponto de desejar aquilo pelo que não se interessava e desconhecia. Há prazeres que estão ao alcance de todos, mas há prazeres que somente a alma regenerada pode obter.

2. É O PRAZER EXPERIMENTADO PELA ALMA REGENERADA QUANDO ESTÁ NA PRESENÇA DE CRISTO.

Há prazeres diversos de natureza espiritual. Mas, do ponto de vista cristão nenhum destes satisfaz plenamente a alma humana se não estiver vinculado à pessoa de Cristo.
O homem sem Cristo é incapaz de reconhecer esta demanda da sua alma. Por isto, ora se dedica com afinco à porção animal da sua vida, pensando que a vida se resume ao mundo dos sentidos. Em muitas ocasiões, entrega-se à prazeres mais sofisticados. Estes podem ser de natureza intelectual, ou artística. Não importa. O fato é que muito embora o homem possa viver sem reconhecer que seu espírito não encontra descanso enquanto não descansa em Deus, não é capaz de matar inteiramente o anelo mais básico de sua alma. Este desejo eterno relaciona-se a necessidade visceral de ter um objeto perfeito de contemplação. Uma contemplação que ao mesmo tempo satisfaça e que ao mesmo tempo experimenta a certeza de que está diante de algo que não se exaure jamais.
A alma regenerada sabe tanto qual a sua origem quanto qual o seu destino. Sabe que foi feita por Deus e para Deus, e, por isto sabe que não encontra descanso enquanto não descansa em Deus. Sendo assim, vive em busca da satisfação proveniente da chamada visão beatífica.
O que é essencialmente cristão neste desejo da alma regenerada é o laço estreito com a pessoa de Cristo. A alma cristã anela por contemplar o Deus que está em Cristo e que Cristo revelou. O apóstolo Paulo não fala sobre estar com Deus, mas estar com Cristo.
Por que estar com Cristo é tão essencial assim para o cristão? O cristão é alguém que não ousa se aproximar de Deus sem Cristo. Foi em Cristo que o cristão perdeu a fobia de Deus. E, tudo o que ele vê em Cristo o comove. Em Cristo o cristão pôde encontrar plena satisfação para o grave problema do pecado. E esta satisfação é profundamente reveladora dos atributos de Deus. A harmonia existente entre o Cristo-Cordeiro e o Cristo-Leão fascina o crente.
Estar com Cristo é estar na companhia do mais excelente objeto de contemplação do espírito humano. Nele o homem contempla toda a harmonia dos atributos perfeitos de Deus. Porém, há algo mais, pois embora contemplar o que é excelente por si só já se constitua em prazer infinito, contemplar o que é perfeito e que elegeu como objeto do seu amor aquele que extasiado o contempla, é a plenitude da alegria da alma regenerada.
Podemos compreender, deste modo, porque somente os regenerados podem ter este prazer. Este prazer é de natureza moral. Resulta do amor por aquilo que é santo. E, não apenas isto, mas de igual modo o amor pelo que é santo acompanhado da gratidão pela redenção.

3. É O PRAZER EXPERIMENTADO PELA ALMA REGENERADA NOS SEUS DIFERENTES GRAUS DE PROXIMIDADE A CRISTO.

Pode-se observar com muita clareza que o apóstolo Paulo fala de um prazer que ele já possuía em uma certa medida: “tendo o desejo...”. E, do mesmo modo de uma insatisfação: “tendo o desejo de partir...”. Aqui a maldição à qual, segundo Pascal, a raça humana sem Cristo está sujeita é completamente quebrada. Para o grande pensador cristão francês a tragédia do homem sem Deus consiste em perceber sua desgraça e ao mesmo tempo conceber algo melhor, porém inalcançável. O apóstolo Paulo podia a partir de uma condição de vida excelente contemplar uma vida melhor ainda, e que poderia ser alcançada a qualquer momento por via da morte.
Deste modo, aprendemos que a alegria de natureza espiritual pode ser experimentada pelo crente numa certa medida na terra. Porém, sempre amalgamada a muita imperfeição. Nesta presente vida o crente pode adorar o Cristo que o salvou. Servi-lo através da consagração da sua vida à expansão do seu reino. E, como podemos acabar de perceber, meditar sobre o céu. Estes são os principais deleites espirituais da alma regenerada.
Existe, contudo, o prazer que a alma haverá de experimentar no céu. Este prazer trata-se do estágio mais elevado da comunhão do crente com Cristo. As principais promessas das Escrituras Sagradas apontam para a chegada deste dia.

APLICAÇÃO

1. TODOS NÓS DEVERÍAMOS NOS CONCENTRAR DE MODO MAIS CONSTANTE E RESOLUTO NOS PRAZERES DE NATUREZA ESPIRITUAL.

O apóstolo Paulo via como desejável uma vida sem os prazeres do corpo. Sabia que tinha um espírito e que havia também prazeres de natureza espiritual. A nós só nos cabe não permitir jamais que deixemos de viver como homens. Temos certamente, mais do que língua, mãos, nariz, ouvidos e olhos. Fomos criados a imagem e semelhança de Deus! Temos uma alma, que pode ter vida sem o corpo e desfrutar de prazeres essencialmente espirituais.
Por isto, deveríamos separar mais tempo em nossa vida para orar, ler a Bíblia, conversar sobre a fé, servir o Senhor, adorá-lo nas suas assembléias santas e separar momentos para a solitude.
Agostinho:
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.
[3]

Quanto tempo de nossa vida dedicamos ao cultivo do espírito?
Agostinho:
Para qualquer parte que se volte a alma humana, se não se fixa em ti, se agarra à dor, ainda que se detenha nas belezas que estão fora de ti e fora de si mesmas. Estas nada teriam de belo, se não proviessem de ti. Nascem e morrem: nascendo, começam a existir e a crescer para chegar à maturidade; porém, uma vez maduras, decaem e morrem. Nem tudo envelhece, mas tudo morre. Portanto, no exato momento em que nascem e começam a existir, quanto mais rapidamente crescem para o ser, tanto mais correm para o não ser.
[4]

2. TODOS NÓS DEVERÍAMOS CONHECER AQUILO PELO QUE ANELA O CORAÇÃO REGENERADO.

Você só funcionará como crente quando conhecer melhor a si mesmo. Você precisa de perceber que tem uma alma. Se esta alma é regenerada, você é alguém que depende duas vezes de Deus. Primeiro, por ser homem. Segundo, por se crente. Por um lado, você experimenta o anelo pelo sagrado, santo e perfeito que todo o ser humano conscientemente ou não prova no seu coração. Mas, por outro lado, você nasceu de novo, e, agora, é alguém que sabe que estar na presença de Cristo é a principal vocação de sua vida.
Amigo, se você não dedicar tempo a esta busca sua vida caíra no vazio. Se você não entende o que estou falando, se essa linguagem lhe é estranha, você talvez careça de regeneração. Você está espiritualmente morto. Mas, se você é crente, peca contra sua própria alma ao privá-la daquilo para o que ela foi criada.
Agostinho: “Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes amar-te e, se eu não o fizer, te indignares e me ameaçares com imensas desventuras? Como se o não te amar fosse desgraça pequena!”
[5]

3. TODOS NÓS DEVERÍAMOS BUSCAR DE TODO NOSSO CORAÇÃO UMA VIDA DE MAIOR PROXIMIDADE A CRISTO.

Saiba o que você deve procurar. Não procure dons. Não procure milagres. Não procure anjos. Não procure visões. Procure a Cristo. Separe tempo para ler os evangelhos. Medite sobre o pacto da redenção, quando o Pai e o Filho decidiram redimi-lo na eternidade. Traga sua memória os fatos relacionados à sua vida, morte, ressurreição e ascensão. Pense no grande amor que ele manifestou por você. E, peça a Deus que ele lhe dê mais de Cristo (Efésios 3).

4. TODOS NÓS DEVERÍAMOS MEDITAR DIARIAMENTE SOBRE AS ALEGRIAS DO ESTADO INTERMEDIÁRIO DA ALMA DO CRENTE.

O texto que acabamos de ler fala sobre aquilo que os teólogos chamam de estado intermediário. O que acontecerá com a nossa alma quando o nosso corpo descer à sepultura? A Bíblia responde com absoluta clareza. Estaremos com Cristo. Medite todos os dias sobre o céu.
A lembrança das alegrias celestiais aliviará sua carga, tornará sua vida mais generosa, seu labor mais resoluto e sua morte mais suave.

CONCLUSÃO
O crente é alguém que sabe que possui uma alma, e que por isto é dotado da capacidade de obter prazer de natureza espiritual. Deus garante na sua palavra que o crente haverá de obter um dia a plenitude de tudo aquilo que sua alma anela. Estar com Cristo é o destino do crente.
Agostinho:
Em nenhuma dessas realidades que percorro, e sobre as quais te consulto, encontro lugar seguro para a minha alma, senão em ti. Somente em ti posso reunir todos os pensamentos dispersos, e nada de mim se afasta de ti. E tu às vezes me introduzes num sentimento interior totalmente desconhecido, inexplicavelmente doce; tal sentimento, se atingisse dentro de mim a plenitude, tornar-se-ia algo certamente não pertencente a esta vida.
[6]

©ANTONIO CARLOS COSTA
IGREJA PRESBITERIANA DA BARRA
RIO DE JANEIRO-8/7/06


[1] ibdem.p.155
[2] ibdem.p.163
[3] ibdem.p. 277
[4] ibdem.p.92
[5] Agostinho, Confissões. Edições Paulinas. São Paulo, 1986. P. 18
[6] ibdem.p. 298.

O PRÊMIO DA SOBERANA VOCAÇÃO


FILIPENSES 3: 12-16

INTRODUÇÃO
Martyn Lloyd-Jones é da opinião que nesta passagem o apóstolo Paulo descreve em detalhe o que poderíamos chamar de método da vida cristã: “O apóstolo dá-nos aqui um retrato mais íntimo de sua própria vida espiritual e da disciplina da sua vida cristã do que em qualquer outro de todos os seus escritos”.
[1] Isto significa que estudar este texto é ter acesso ao segredo da vida de um gigante espiritual. É conhecer o padrão de espiritualidade seguido pelos maiores santos de todos os tempos, pois as melhores biografias dos mais eminentes servos de Deus revelam estes princípios sendo aplicados em suas vidas. Aqui temos o caminho estabelecido pelo próprio Deus para a vida de todo aquele que tem anelos de santidade em seu coração.
Nos versos anteriores pudemos perceber qual o maior interesse da vida do apóstolo Paulo. Ele anelava por conhecer a Cristo e imitá-lo. No verso 8 ele apresenta a causa da sua santa e saudável fixação na pessoa do Salvador. A excelência do conhecimento de Cristo o fascinava. Tratava-se de um conhecimento sublime, acima dos demais e amável por si mesmo. Neste mesmo verso ele expressa seu desejo de ganhar a Cristo. Ter mais do seu Redentor. No versículo 10 mais uma vez o grande apóstolo revela o anseio de conhecer a Cristo para além daquilo que já conhecia. Mas, não apenas isto. Seu anelo era o de conformar sua vida à vida de Cristo. Experimentar o poder da sua ressurreição, a comunhão dos seus sofrimentos, a identificação com sua morte até alcançar a ressurreição dos mortos.
Ao chegarmos ao verso 12 o apóstolo Paulo exprime um fato relacionado à sua vida e a de todos os crentes. Apesar de toda a renúncia que havia feito do seu passado, da experiência da justificação pela fé e do conhecimento vivo da pessoa de Cristo que alcançara, ele relata que não tinha ainda atingido uma meta.
Antes de sabermos de que alvo o apóstolo Paulo fala, ou seja, qual o significado desta meta, precisamos esclarecer o que ele certamente não está falando quando menciona este objetivo ainda não alcançado. É fato que este alvo não pode se relacionar a sua salvação pessoal. Esta ele a tinha e sempre a teve por segura (II Tm 1:12; Rm 8: 38-39; Fp 1:6). Nos versos anteriores ele ressalta o fato de haver alcançado uma justiça gratuita que vem pela fé. Esta justiça é aquela mediante a qual Deus nos considera justos. Não por o sermos perfeitamente de fato, mas por causa da justiça que nos foi atribuída por Cristo quando nele cremos. A justificação dá-se pela graça mediante a fé somente. Quem crê é declarado justo. Quem é justo é herdeiro da promessa da vida eterna. Está fora de condenação.
É igualmente certo que o apóstolo Paulo não está falando aqui sobre o céu. Era evidente para todos que ele não havia alcançado ainda o céu. Uma afirmação como esta: “não que eu o tenha já recebido...” seria absurda se ele estivesse a dizer que não havia ainda alcançado a ressurreição dos justos. Seria como um certo escritor que disse jocosamente que as notícias referentes à sua morte eram exageradas.
Não se discute que o prêmio da soberana vocação envolvia a promessa da ressurreição final e a conseqüente entrada no céu. Todo o contexto do capítulo, no entanto, revela seu anelo de conhecer a Cristo e se conformar à forma de viver do seu Senhor e Salvador. Este era o seu alvo. O déficit que ele provava em sua vida relacionava-se a distância que sentia quando pensava numa vida semelhante à de Cristo.
A perfeição que ele ansiava alcançar era um conhecimento amplo da pessoa de Cristo associado a uma profunda identificação com a vida de Cristo. Este é um texto que sem dúvida fala sobre santificação. Isto porque a santificação trata-se justamente disto: o processo através do qual a vida do crente torna-se parecida com a do seu Senhor e Salvador. Martyn Lloyd-Jones revela sua certeza quanto a meta acerca da qual o apóstolo Paulo está falando:
Ele foi salvo, como todo cristão, a fim de que ele pudesse alcançar um alvo particular, e ele descreve este alvo no versículo 10 – que ele pudesse conhecer a Cristo plena e perfeitamente; e não apenas isto, mas que ele pudesse tornar-se como Cristo, que ele pudesse conhecer ‘o poder da sua ressurreição, a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-se com ele em sua morte’.
[2]

DOUTRINA: O CRISTIANISMO NOS CHAMA PARA VIVERMOS UMA VIDA DE AVANÇO DIÁRIO RUMO A NOSSA PARTICIPAÇÃO NA SANTIDADE DE CRISTO.

PERGUNTA-CHAVE: COMO DEVEMOS AVANÇAR TODOS OS DIAS RUMO A NOSSA PARTICIPAÇÃO NA SANTIDADE DE CRISTO?


1. DEVEMOS AVANÇAR TODOS OS DIAS RUMO A NOSSA PARTICIPAÇÃO NA SANTIDADE DE CRISTO COM A CONSCIÊNCIA DA NOSSA IMPERFEIÇÃO PESSOAL.


Ninguém progride na vida cristã sem um senso de insatisfação. Uma das características dos verdadeiros santos de Deus é um sentimento de descontentamento com o nível de crescimento espiritual alcançado. No verso 12 o apóstolo Paulo expressa o sentimento de que havia em sua vida muita imperfeição a ser corrigida. Ele se sentia distante do alvo. Sabia que podia conhecer mais de Cristo e ter sua vida mais semelhante à vida do seu Salvador.
A vida cristã, por mais longe em sua jornada espiritual que um crente tenha ido, é sempre marcada por humildade. É impossível viver o cristianismo sem convicção de pecado. As lágrimas fazem parte da vida na graça. Isto porque o cristão sabe que foi conquistado pelo amor divino não apenas para ser perdoado, mas para ser santo. A fé cristã sinaliza para o crente uma vida semelhante àquela que o próprio Deus vive. Uma vida de perfeito amor. Os olhos do cristão estão postos na beleza do caráter de Deus. Um Deus que o convida para ser partícipe da beleza da sua santidade. A defasagem entre o que o cristão é e o que poderia ser o torna mais humilde, quebranta-lhe o coração e traz-lhe fome e sede de justiça à alma. Estas são ao lado da mansidão as primeiras bem-aventuranças que o Senhor Jesus nos ensinou.
[3] São algumas das principais marcas da verdadeira espiritualidade e os sentimentos que estão entre os mais presentes na autêntica vida cristã.
Ao mesmo tempo somos lembrados por esta passagem do fato de que a graça de Deus pode habitar em meio a muita imperfeição. O apóstolo Paulo admite que a justificação não produz imediatamente homens e mulheres perfeitamente santos. Não existe santificação instantânea na Bíblia. Como muito bem nos recorda Martyn Lloyd-Jones:
“... perfeição e completa santificação não são alcançadas de repente... não há transição repentina de um estado de aperfeiçoamento para um estado de perfeição... em um encontro ou numa convenção você pode ter uma nova visão do amor de Deus, mas isto é muito diferente de perfeição e completa santificação”.
[4]

Deste modo, um paradoxo é criado. De um lado a justificação que leva o crente a aceitar que é aceito por Deus apesar das suas imperfeições. Por outro lado o chamado à santificação que leva o crente a não aceitar a vida que leva. Uma vida ainda tão distante do ideal de Deus para o seu povo.

2. DEVEMOS AVANÇAR TODOS OS DIAS RUMO A NOSSA PARTICIPAÇÃO NA SANTIDADE DE CRISTO NÃO PERMITINDO QUE A VISÃO DAS NOSSAS IMPERFEIÇÕES NOS PARALISE, MAS PROSSEGUINDO FIADOS NA VITÓRIA SOBRE O PECADO QUE CRISTO CONQUISTOU PARA O SEU POVO.

No verso 12, conforme foi ressaltado acima, o apóstolo Paulo reconhece o fato de que a graça de Deus não nos torna perfeitos no exato ponto da nossa justificação. A justificação é a garantia de que nossos pecados foram perdoados e que não há mais separação entre nós e Deus. A justificação, contudo, não é a garantia de que estamos livres completamente do pecado.
A graça de Deus, contudo, que nos justifica é a mesma que nos santifica. O Cristo que conquistou para nós o perdão no Calvário é o mesmo que conquistou para nós a vitória sobre o pecado.
É justamente por isto que o apóstolo Paulo diz no verso 12 “... mas prossigo...”. Suas imperfeições não geravam uma espécie de paralisia espiritual fruto de desânimo com as imperfeições da vida. Ele podia dizer: “Não que eu o tenha já recebido, ou tenha já obtido a perfeição...”. Num mesmo fôlego, no entanto, podia também dizer: “... mas prossigo...”. Qual a razão de ele não haver sido vencido pelo desânimo? A razão devia-se ao fato de ele saber que a realidade dos resquícios do pecado em seu coração não era a única verdade sobre sua vida. Ele sabia que Cristo havia conquistado para ele a vitória sobre o pecado também. Não apenas o perdão. Não apenas a vida eterna. Não apenas a adoção. Mas, a santificação também: “... prossigo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus”.
Porque havia sido salvo por Cristo soberanamente, o apóstolo Paulo sabia que podia conquistar o que Cristo havia conquistado para ele. Sua certeza era a de que a graça trazida por Cristo possibilita ao crente conquistar a vitória sobre o pecado. A vitória sobre aquilo que leva o homem a viver a vida que Deus não vive.
Fica de modo bastante evidente nesta passagem que o segredo da vida cristã é o crente saber quem ele é. Tomar consciência em sua vida que o pecado não lhe é mais natural. O crente é alguém que recebeu uma nova natureza. Sua natureza regenerada não deseja mais o pecado. O pecado lhe é antinatural. O segredo da fecundidade da vida espiritual do apóstolo Paulo é revelado nesta passagem. Um profundo otimismo espiritual face à presença da graça em seu coração. Ninguém avança na vida cristã julgando que o pecado é um problema sem solução. Avança-se na vida cristã sabendo que Cristo conquistou a santificação para o seu povo.

3. DEVEMOS AVANÇAR TODOS OS DIAS RUMO A NOSSA PARTICIPAÇÃO NA SANTIDADE DE CRISTO ESQUECENDO-NOS DO QUE DEVEMOS NOS ESQUECER DO PASSADO, INVESTINDO NO QUE DEVEMOS INVESTIR NO PRESENTE E OLHANDO PARA O QUE DEVEMOS OLHAR NO FUTURO.

Mais uma vez o apóstolo Paulo menciona a realidade da sua imperfeição no verso 13: “Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado...”. Fica claro que tratava-se de algo que ele queria que os “irmãos” soubessem muito bem. Ao dizer “quanto a mim” procura apresentar a partir da sua autoridade de apóstolo algo que dizia respeito à vida de todos os cristãos. Se este era o seu caso, o mesmo deveria acontecer na vida de todos os crentes. Em seguida afirma: “... não julgo havê-lo alcançado...”. Com base num minucioso auto-exame ele podia perceber que não era o que deveria ser. Uma verdadeira inspeção da própria vida resulta sempre nesta declaração. Aqui somos mais uma vez remetidos a um dos segredos de sua vida espiritual. O apóstolo Paulo submetia sua vida a disciplina espiritual do auto-exame. Carecemos de saber se regredimos em nossa vida cristã, ou se estamos vivendo uma fase de estagnação. Só descobrimos estas coisas quando de uma forma não neurótica, mórbida ou exageradamente introspectiva, examinamos a nós mesmos, aplicando certos testes à nossa vida.
A despeito de tudo, porém, uma decisão ele havia tomado: “... mas uma coisa faço....” Este é o verdadeiro auto-exame. Aquele que não nos enfraquece, mas nos leva a agir. Ficamos aqui face a face com um conceito de espiritualidade ativo. No qual as imperfeições, conforme foi falado acima, não inibem o crente de agir, e, a graça o leva a avançar esperançosamente. Aqui vemos a importância da concentração na vida cristã. Uma coisa faço! O mundo esta cheio de distrações, por isto o cristão se mantém concentrado em sua santificação. Não há espaço para esforços espasmódicos. A vida cristã é impossível de ser vivida sem disciplina. Temos que saber usar o tempo, nossas conversações, o lazer, viagens, entre tantas outras coisas mais que as vezes são inocentes em si mesmas, mas que podem se transformar em ídolos em nossa vida.
Que coisa é esta que o apóstolo Paulo fazia? Ele revela que havia tomado decisões quanto ao passado, ao presente e ao futuro de sua vida. Ele via o cristianismo como algo que deveria afetar sua visão do passado de sua vida e determinar o curso de sua história no presente com base num alvo estabelecido pela graça para o seu futuro.
Em primeiro lugar, ele destaca um tratamento que deveria dar ao seu passado: “... esquecendo-me das coisas que para trás ficam...”. Que declaração extraordinária! Sobre o que ele está falando? Certamente ele está falando sobre algo que inevitavelmente temos que deixar para trás por ser incompatível com a dinâmica da vida cristã e a própria vida cristã. Nem tudo fica para trás em nossa vida. Por isto, nem sempre devemos nos esquecer do passado. Por exemplo, jamais ficará para trás em nossa vida o que Cristo fez por nós ao nos salvar. Aí está algo do qual não podemos jamais nos esquecer. Como nos esquecer das misericórdias manifestadas no passado de nossa vida?
Existem, no entanto, as coisas que para trás ficam. Ficam porque o evangelho exige que assim o façamos. Passamos por elas. Devemos deixá-las passar. Devem ser esquecidas. Por que devem ser esquecidas? Por que o evangelho fez com que elas ficassem para trás! Este é o ponto. Se o evangelho exige que elas fiquem para trás isto deve-se ao fato de que o evangelho as sepultou. E, se o evangelho as sepultou elas nos são prejudiciais à vida cristã.
Vamos agora a questão básica: o que deve ser deixado para trás? Se formos nos ater ao texto do capítulo 3 (esta é sempre uma boa forma de interpretação bíblica), veremos que o apóstolo Paulo fala de três coisas que se relacionam ao passado de sua vida. A primeira, é a religião sem Cristo. Todo o histórico de conquistas morais e espirituais dos versos de 4 a 6. Estas coisas deveriam ser deixadas para trás por serem fonte geradora de soberba. Com o evangelho no coração ele podia prescindir de todas elas. A segunda, é a que ele nos apresenta nos versos 12 e 13. Sobre o que ele nos fala nesses versos? Ele fala tanto de algo que já havia conquistado como de algo que não havia conquistado ainda. Ele já se via dentro de um processo. Alguma coisa estava em curso na sua vida. Havia, contudo, em seu coração um senso de ausência. A falta de algo que ele julgava que deveria lutar para alcançar. A terceira, são os erros que cometeu após sua conversão. Como ele haveria de dizer que não havia alcançado a perfeição senão através da percepção das falhas de sua vida?
A conclusão a que chegamos é que o apóstolo Paulo queria se esquecer das seguintes coisas:
- A religião sem Cristo, com todo seu histórico de façanhas espirituais e legalismo religioso. Isto poderia levá-lo a soberba tola.
- As etapas da vida cristã que já havia passado e que deveriam conduzi-lo a algo maior. Isto poderia, caso não o fizesse, a levá-lo a estacionar numa fase que deveria servir de plataforma para a promoção de algo maior. Diz Martyn Lloyd-Jones:
Muitos cristãos estão com problemas porque tentam viver das experiências passadas. Eles se lembram das suas experiências e tentam sacar alguma coisa delas; eles estão, como se fosse, retirando algum capital que lhes foi dado no passado, sem receber nada no presente. Paulo denuncia isto; este não é de modo algum o seu método. Ele não se agarra ao passado, ou vive de suas experiências; seu método é ativo, avançando em direção do futuro.
[5]

- As derrotas do passado frutos da imperfeição da sua vida. Isto poderia levá-lo ao desânimo.
Esquecer-se de todas estas coisas era fundamental para que ele se mantivesse fiel ao evangelho e não permitisse que obstáculos surgissem em sua jornada espiritual. Esquecer-se da antiga religião é fundamental porque o evangelho nos remete para algo diametralmente oposto. Trazer vícios da antiga religião para o cristianismo é cair, ou no legalismo adoecedor, ou cair no orgulho espiritual suicida. Esquecer das etapas da vida cristã já transpostas é importante porque o cristianismo é sempre uma religião que acrescenta coisas ao homem. Uma bênção conduz a outra. Ele já havia sido justificado. Sua preocupação não deveria ser mais com o perdão dos pecados, mas com a santificação do seu ser.
Não havia espaço em seu cristianismo para o saudosismo, a culpa, a fixação infantil numa etapa da sua jornada espiritual ou a estagnação numa das fases da vida cristã. Isto liberava uma energia enorme que podia ser canalizada para o que ele menciona a seguir. William Hendriksen ajuda-nos a entender à luz da metáfora usada por Paulo a importância para nossa vida de não “olharmos para trás”: “O corredor não olha para trás. Sabe que se o fizer perderá velocidade, saíra da pista, e fracassará em seu intento de ganhar. Além do mais, virar a cabeça enquanto se corre é sumamente perigoso”.
[6] Assim, ele poderia aplicar todo seu vigor em algo muito mais valioso. Ele fala de um avanço contínuo para as coisas diante de que estava: “... avançando para as que diante de mim estão...”. Hendriksen nos lembra que “o verbo empregado no original é bastante gráfico. Pinta o corredor com todos os seus músculos e nervos tensos, correndo com todas as suas forças para a meta, com a mão estendida como se quisesse agarrá-la”. [7]
Martyn Lloyd-Jones nos recorda que o verbo usado para avançando é o mesmo que ele usou no verso 6 para falar da sua perseguição da igreja:
Lá ele desceu a estrada, respirando ameaças e morte, perseguindo a igreja. E, este é o modo pelo qual está vivendo a vida cristã. Assim como ele uma vez seguiu os cristãos e os caçou e os procurou em todo canto e esquina, desse modo ele está agora seguindo esta coisa pela qual ele foi conquistado.
[8]

A vida cristã é uma vida de constante avanço. O cristão sabe que Deus tem para ele o que é excelente. Deus decretou ter mais filhos aos quais lê pudesse amar com o amor que tem por Cristo. O amor que Deus tem por Cristo é um amor complacente. O Pai se deleita no Filho. A felicidade do Pai consiste em contemplar a beleza do seu Filho amado. O Pai no predestinou para esta salvação a fim de que sejamos partícipes do prazer que ele tem no Filho. O Pai quer se ver em nós! Por isto o crente avança. Usa sempre o seu presente para que cada segundo o leve na direção do sonho de Deus.
O crente regula sua vida como um todo com base em um alvo que tem para o futuro. Se não sabemos para onde ir, qualquer caminho que tomemos nesta vida fará sentido. Viver, porém, sem fazer escolhas racionais que devem sua razão de ser a um plano pré-estabelecido em bases intelectuais sólidas, é viver a vida dos animais irracionais. O apóstolo Paulo revela que sabia de antemão como deveria administrar o seu dia. Os caminhos que teria, conseqüentemente, de escolher: “... prossigo para o alvo...”. Tudo em sua vida que não se ajustasse a este alvo haveria de ser lançado para longe por ele. Todos os demais alvos de sua existência eram subservientes a este alvo maior.

4. DEVEMOS AVANÇAR TODOS OS DIAS RUMO A NOSSA PARTICIPAÇÃO NA SANTIDADE DE CRISTO SABENDO DE ANTEMÃO QUE FOMOS SOBERANAMENTE CHAMADOS POR DEUS PARA SERMOS PERFEITAMENTE SANTOS.

Não há vida mais emocionante do que a cristã. É a única que tem o direito de ser considerada como tal. Mas, certamente viver a vida cristã em um mundo como esse é expor a própria existência a inúmeros perigos. O cristianismo atrai perseguição. Vale a pena ressaltar não apenas isto, mas o fato de que o próprio desenvolvimento da vida cristã está exposto a muitos obstáculos, neste mundo que não é o habitat natural para aquele que é santo. É como subir uma montanha. Lá está alguém num determinado ponto da escalada tendo que administrar um escorregão e a necessidade de retomar um caminho difícil.
Nada é mais importante abaixo do trabalho do Espírito Santo na vida do crente do que a motivação da Palavra de Deus. É o fogo no coração que a verdade do evangelho põe que faz o crente lançar para longe de si o desânimo. No verso 14 o apóstolo Paulo revela o pensamento que norteava toda sua busca por Cristo e uma vida de santidade. Primeiro, ele fala de um prêmio. Ou seja, o glorioso resultado final da salvação trazida por Cristo. Em seguida, ele menciona a “soberana vocação de Deus”. Ele se via como alguém que fora soberanamente vocacionado, ou chamado por Deus. E, isto, “em Cristo Jesus”. Algo que lhe chegara à alma quando ele teve seu encontro com Cristo.
Bom, buscar a santificação e a Cristo é atender o chamado soberano de Deus. Aí está toda a glória do evangelho! O evangelho quando aplicado pessoalmente pelo Espírito Santo na vida de um homem, representa Deus o chamando para ser salvo deste mundo, não imitar a Satanás, vencer a si mesmo, a fim de participar da santidade de Cristo. Não há propósito maior de Deus para nossa vida do que este.
É a origem divina desta vocação que leva o crente a concentrar-se inteiramente nesta meta. Quem o chamou para participar desta vida foi o próprio Deus. Quem o estimula a continuar correndo é Deus. Quem lhe dará o prêmio será Deus.

5. DEVEMOS AVANÇAR TODOS OS DIAS RUMO A NOSSA PARTICIPAÇÃO NA SANTIDADE DE CRISTO CONCILIANDO A DEPENDÊNCIA DE DEUS COM O TRABALHO HUMANO.

Há etapas da salvação que são monergísticas e há etapas da salvação que são sinergísticas. Quando pensamos na regeneração, por exemplo, somos levados a crer que trata-se do trabalho de Deus somente em nossa vida. Da mesma forma que não somos responsáveis pelo nosso nascimento biológico, não somos responsáveis pelo nosso nascimento espiritual. Não podemos ser. Estávamos mortos e Deus teve que nos dar vida a fim de que atendêssemos a sua voz. Já a santificação é uma obra onde ocorre uma sinergia. O trabalho de duas pessoas. Deus e o crente regenerado.
Esta doutrina nos é ensinada nos versos 15 e 16 que destacam o lado divino-humano da santificação. Senão vejamos: primeiro, o apóstolo Paulo faz um apelo aos que são perfeitos. Aqui ocorre uma aparente contradição. Sabemos que ele já havia acabado de dizer que nenhum cristão é perfeito. E, agora faz um apelo aos que são perfeitos. De quem ele está falando? Ele está falando certamente de si mesmo e das mesmas pessoas que considera imperfeitas tal como ele. Uma afirmação pode ser verdadeira e ao mesmo tempo falsa quanto a alguma coisa dependendo da perspectiva em que tratamos da questão.
Nenhum crente é no campo da santificação perfeito, mas todos os crentes são perfeitos no campo da justificação. A santificação tem seus graus de perfeição. Varia de pessoa para pessoa em intensidade. Já a justificação não. Ninguém pode ser mais justificado do que outro em razão do fato do perdão que Deus nos concede ser perfeito e o sacrifício de Cristo na cruz suficiente para cobrir todas as nossas iniqüidades. É possível, e este é o ponto de vista de grande parte dos comentaristas bíblicos, que o apóstolo Paulo esteja falando sobre crentes amadurecidos que haviam alcançado este nível de interesse pela santificação de suas vidas. F. F. Bruce partilha deste ponto de vista: “... a ambição centralizada em Cristo, expressa por Paulo, é o que deveria caracterizar todos os crentes ‘maduros’, isto é, perfeitos”.
[9]
Os que são perfeitos quanto a sua posição diante de Deus, ou que alcançaram certo nível de maturidade, sempre terão alguma deficiência a ser superada em seu entendimento da verdade. Estes podem “... pensar de um outro modo...”. Poderiam ter dúvidas quanto a certas particularidades da verdade.
Deus, porém, que os havia chamado para serem santos, haveria de estar com eles em todo o processo. Trazendo-lhes algo de tão grande importância para a vida cristã que vem a ser esclarecimento: “Deus vos esclarecerá”. Pelo seu Espírito Deus lhes traria entendimento espiritual. Os ajudaria a aplicar a verdade, a discernir o que ao homem foi dado conhecer daquilo que só será compreendido na glória celeste. Tudo o que eles deveriam fazer era ser pacientes nas suas indagações, esperando em Deus a resposta que haveria de lhes trazer esclarecimento. Martyn Lloyd-Jones comenta:
Este é certamente um princípio muito saudável. A maneira do apóstolo de lidar com aquelas dificuldades e com algumas perplexidades intelectuais é esta: prática! Coloque em operação as coisas centrais acerca das quais você está certo e se você fizer isto, Deus então revelará a você a verdade concernente aquelas outras coisas.
[10]

Apesar do socorro divino, no entanto, a eles cabia andar “... de acordo com o que já alcançamos”. Eles não deveriam estacionar na vida cristã. Era-lhes mister usar cada etapa da vida cristã para alcançar a outra. Com base no conhecimento já adquirido prosseguir na direção da meta gloriosa estabelecida por Deus. Conforme diz William Hendriksen:
A norma foi estabelecida. O princípio – ‘estamos muito longe de ser perfeitos, mas em Cristo devemos esforçar-nos para alcançar a perfeição’ foi enunciado e exemplificado. Que nossas vidas, pois, sejam regidas pela consciente aplicação deste princípio. Jamais deve ser abandonado.
[11]

Resumindo, aqui temos de acordo com a descrição do apóstolo Paulo o que cabe ao crente fazer e o que ele deve esperar da parte de Deus. Ao crente cabe:
- Compreender que já foi objeto de uma obra de transformação da graça de Deus, e, justamente por isto o apelo a santificação é feito a ele.
- Com base em entendimento da verdade, cultivar em seu coração o sentimento de amor por Cristo e pela vida de santificação.
- Ter esperança de que Deus lhe dará entendimento espiritual sempre que precisar.
- Andar de acordo com as etapas que correspondem às conquistas espirituais e entendimento da verdade obtidos mediante a fé em Cristo.

APLICAÇÃO

1. CONSIDERE DE MODO SOLENE E QUEBRANTADO SUAS IMPERFEIÇÕES.
Esta é a condição indispensável para uma vida de crescimento espiritual. Somente emendaremos de modo resoluto nossa vida se experimentarmos convicção de pecado. Não existe nada que nos impeça mais de crescer na graça do que uma cega satisfação com a nossa vida cristã.
Evite medir sua vida pela daqueles que o cercam e estão como a se arrastar em sua vida espiritual. Veja sua vida à luz da meta que a Palavra de Deus apresenta. Olhe para Cristo e sua completa dedicação à vontade do Pai. Pense nos seu amor pelos perdidos. Sua misericórdia pelos sofredores. Sua dedicação aos seus discípulos.

2. NÃO PERMITA QUE A VISÃO DAS SUAS IMPERFEIÇÕES O LEVE A CONSIDERAR-SE NÃO CONVERTIDO.

Há uma boa forma de você saber que suas imperfeições não são os defeitos dos hipócritas e sim as deficiências restantes na vida dos santos de Deus. Os santos não conseguem conviver com o pecado. Não tratam de adulterar a Bíblia a fim de fazer com que o seu pecado caiba nela. Você se inquieta com suas imperfeições? Elas lhe são um peso? Você tem lutado para abandoná-las?
Lembre-se que você foi justificado pela graça mediante a fé somente. Buscar paz para a consciência numa vida perfeita é cair em areia movediça. Você foi salvo para a vida perfeita, não pela vida perfeita. Aliás, você foi salvo sim pela vida perfeita, mas não a sua, e, sim, a do seu Salvador que é o Cordeiro Santo de Deus que morreu pelos seus pecados e cumpriu a lei para que você alcançasse a vida eterna. Lembre-se que o apóstolo Paulo se considerava salvo apesar das suas imperfeições.


3. EVITE A TODO CUSTO CRER EM PROMESSAS DE SANTIFICAÇÃO INSTANTÂNEA.

A santificação é um processo. Não pode ser alcançada num final de semana em um retiro. Um grande incremento a nossa santificação pode ocorrer num encontro, retiro, congresso ou convenção. A idéia, contudo, de que podemos ser subitamente alçados a uma vida sem pecado, lutas e tentações vai de encontro a tudo que a Bíblia nos ensina. A santificação é luta diária. Uma bênção que tende sempre a aumentar na vida do crente disciplinado, mas que nunca lhe vem de modo súbito e perfeito.

4. CREIA QUE A GRAÇA DE DEUS JÁ O TIROU DA ESCRAVIDÃO DO PECADO.
Saiba quem você é. Não se veja como um escravo do pecado. Alguém que só deve contar com a graça misericordiosa e perdoadora e não com a graça poderosa e transformadora. Satanás fará de tudo para convencê-lo que não há mais esperança. Que sua vida é a mesma. Que genética é algo mais poderoso do que graça. Que a força dos antigos hábitos e maior do que o poder da regeneração. Creia que onde todos os da sua família falharam você pode sair vitorioso, porque você nasceu de novo.

5. PRATIQUE SEMPRE A DISCIPLINA DO AUTO-EXAME.
Não existem atalhos na vida de santidade. Um caminho que tem sido tomado pelos grandes santos de Deus na história é o da prática diária do auto-exame. Estes homens sempre entenderam que não haveriam de largar o pecado, detectar faltas que muitas vezes passam despercebidas pelos que as praticam e avançar na vida de santidade, sem avaliarem sua conduta diária.
Faça certas perguntas diariamente a si mesmo:
- Usei o dia para a glória de Deus?
- Tenho manifestado um espírito de autonegação em minha vida?
- Pratico os exercícios devocionais que aproximam a alma de Deus e fortalecem o coração?
- Pessoas têm sido levadas a Cristo por meu intermédio?
- Sou um adorador?
- Sou grato a Deus?
- Vivo como que sabe que a vida é dura, curta e incerta?
- Tenho me preparado para o dia da minha morte?
- Os que me são mais próximos podem dizer que vêem Cristo em minha vida?
- Sou generoso?
- Manifesto em meu viver diário amor pelos homens?
Procure sondar o seu coração através do sermão do monte, dos dez mandamentos, da lista do fruto do Espírito e de todos os textos bíblicos que falam sobre santificação.
Leia biografias dos grandes santos de Deus. Examine seu estado de alma tomando como base a vida que estes homens viveram. Peça para que pessoas de sua confiança lhe digam quem você é. Faça um inventário das suas últimas conversas, pois uma boa forma de sabermos quem somos é avaliando o conteúdo do que sai dos nossos lábios. A boca fala do que o coração está cheio!

6. AJA DE MODO CONCENTRADO.
Uma coisa faço! Não há santificação sem luta. Precisamos agir. Não espere que a vida de santidade lhe caia subitamente do céu. Crie hábitos de santidade. Evite o que pode arrefecer o fogo do Espírito em seu coração.
Fuja de toda distração. Não permite que nada ocupe em sua vida em termos de importância, dedicação de tempo e anelo do coração, o lugar da busca por uma vida santa. Cuidado com dedicação exagerada a coisas que em si não são pecaminosas, mas podem roubar-lhe tempo precioso que você poderia dedicar ao cultivo do seu coração.

7. PROCURE SE ESQUECER DAS COISAS QUE PARA TRÁS FICAM.
Evite trazer para dentro do cristianismo os vícios da antiga religião. Repila os rudimentos deste mundo. Fique com o evangelho somente! Não viva de experiências passadas. Não acumule o maná! Busque o novo que o Deus das doces surpresas tem para a vida do seu povo. Lance decididamente para longe de si toda nostalgia. Olhe para frente. A vida cristã é uma vida que avança. O melhor que Deus reservou para você e para mim está por vir.
Use cada etapa da vida cristã para avançar para uma outra. Seja cobiçoso. A Bíblia não condena a cobiça que faz a alma ser consumida pelo desejo daquilo que é sumamente bom.
Esqueça-se dos pecados que você praticou dos quais o próprio Deus já se esqueceu. Use esta energia que a culpa consome para a prática do bem. Não olhe para trás! Você está no meio de uma corrida. Mantenha os seus olhos fixos na linha de chegada. Olhar para trás pode desviá-lo do caminho ou levá-lo tropeçar.


8. NÃO SEJA MOLE NA ADMINISTRAÇÃO DA SUA VIDA CRISTÃ.
Imite os atletas. Esta é uma metáfora muito usada e querida para o apóstolo Paulo. Não olhe para trás. Olhe para frente. E corra! Não há tempo a perder. Aplique suas energias. Use a determinação que você já usou para passar em concursos, ganhar músculos, ficar belo, ganhar dinheiro, entre outras coisas mais, para ser santo.

9. MEDITE TODOS OS DIAS SOBRE A GLÓRIA QUE É SER CRISTÃO.
Lembre-se que foi Deus que soberanamente o chamou. Sendo assim, a carreira por si só já é gloriosa. Contudo, há um prêmio a ser dado pelo próprio Deus. Algo que atende a todas as expectativas humanas.
Satanás está por acaso querendo jogá-lo contra Deus dizendo que a vida cristã tem sido dura para você? Confronte-o! Resista-o! Pregue para si mesmo dizendo que não há vida mais fascinante do que a cristã. É privilégio sem fim atender o chamado glorioso e santo de Deus.
Analise a vida dos ímpios. Ela é desejável? Faz sentido viver uma vida que por si só não satisfaz e que caminha para algo pior? Menosprezar o chamado de Deus é razoável? Diga: “fui chamado soberanamente por Deus em Cristo Jesus para participar da santidade de Deus. Que glória atender este chamado!”.

10. COMPREENDA QUE A SANTIFICAÇÃO É UMA OBRA DIVINO-HUMANA.
Lembre-se que você já encontra-se já está em estado de graça. Foi justificado. Está em processo de amadurecimento. Algo de maravilhoso já aconteceu em sua vida. Mantenha firme o seu entendimento da seguinte verdade: Deus o chamou para ser partícipe da santidade de Cristo.
Não permita que as coisas que você não compreende no cristianismo impeçam você de viver à luz do que sabe ser verdadeiro e entende muito bem. Aguarde em Deus a solução para os seus problemas intelectuais. Se você tem dúvidas quanto a própria maneira de administrar sua vida cristã, lembre-se de que Deus prometeu que lhe esclarecerá.
Ande de acordo com o que já alcançou. Não permita que ninguém o demova da verdade do evangelho. Use cada verdade compreendida e cada etapa alcançada para avançar. Não estacione. Deus o chama para cruzar a linha de chegada.

CONCLUSÃO
Nesta passagem tão importante para o lado prático da vida cristã, tomamos consciência de duas coisas: a primeira, a origem gloriosa do nosso chamado para viver a vida cristã. Fomos vocacionados soberanamente por Deus em Cristo Jesus. A segunda verdade tão importante para nossa vida, é que há um método, uma forma, um caminho apontado pela Palavra de Deus para que alcancemos a santidade de vida.
Que sejamos até a medula tocados pelo chamamento divino que nos convoca para sermos participantes da santidade de Cristo e um dia ressuscitarmos para uma santificação perfeita. Que tudo isto nos empolgue e anime. E que tomemos o caminho que já foi trilhado pelos grandes servos de Deus no passado a fim de que sejamos santos.
Nesta passagem, portanto, recebemos a motivação para a santidade e somos apresentados ao caminho da santidade. Que de modo similar ao apóstolo Paulo possamos dizer: “... prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”. Estar maravilhado com este prêmio e saber como prosseguir para o alvo são os principais segredos de uma vida santa.

@ANTONIO CARLOS COSTA
IGREJA PRESBITERIANA DA BARRA
RIO- NOV. 2006

[1] LLOYD-JONES, Martyn. The Life of Joy and Peace. Grand Rapids: Baker Books, 1999. p. 325-326
[2] LLOYD-JONES, Martyn. The Life of Joy and Peace. Grand Rapids: Baker Books, 1999. p. 318
[3] Mt 5: 1-12

[4] LLOYD-JONES, Martyn. The Life of Joy and Peace. Grand Rapids: Baker Books, 1999. p. 322-323
[5] Ibid, 328.

[6] HENDRIKSEN, Guillhermo. Filipenses Comentario del Nuevo Testamento. Grand Rapids: Subcomision Literatura Cristiana, 1989. p. 193

[7] Ibid, 194

[8] LLOYD-JONES, Martyn. The Life of Joy and Peace. Grand Rapids: Baker Books, 1999. p. 330.
[9] BRUCE, F. F. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Filipenses. São Paulo, 1989. p. 134

[10] LLOYD-JONES, Martyn. The Life of Joy and Peace. Grand Rapids: Baker Books, 1999. p. 341.

[11] HENDRIKSEN, Guillhermo. Filipenses Comentario del Nuevo Testamento. Grand Rapids: Subcomision Literatura Cristiana, 1989. p. 198

A CIRCUNCISÃO DO CORAÇÃO


FILIPENSES 3: 1-3

INTRODUÇÃO

Somos claramente advertidos na Palavra de Deus que para todas as operações do Espírito Santo no coração dos seres humanos há uma falsificação sustentada pela falsa religião. O coração do homem é sempre propenso ao engano. E, poucas coisas o mantém mais afastado da verdadeira religião do que a falsificação espiritual que é sustentada pela falsa religião através dos seus mestres. Que armadilha infernal: homens aparentemente de um nível de espiritualidade acima dos demais a ensinar o erro!
Esta passagem da carta aos filipenses nos mostra o apóstolo Paulo lidando com o problema da falsa transformação de coração patrocinada pela falsa religião. No verso primeiro ele menciona a necessidade de repetir certas verdades que anteriormente havia ensinado. Seu argumento era o de que certas doutrinas precisam ser regularmente trazidas à memória da igreja. A razão desse ensino mediante repetição é clara. Trata-se de algo bom para a segurança da igreja. Certas doutrinas costumam ser objeto dos ataques mais diretos das trevas. E, devido ao valor destas mesmas doutrinas, nunca é demais que o pastor desfaça equívocos relacionados à compreensão dessas mesmas doutrinas e trate de reapresentar as verdades essenciais da fé no propósito da igreja permanecer firme na verdade.
A fonte do falso ensino é mencionada. Falsos mestres estavam induzindo pessoas a serem demovidas da verdadeira vida cristã. Ele chama esses homens de cães devido a sua tendência a comer o que é imundo, ferocidade e insensatez. São avaliados como maus obreiros devido ao fato de estarem imiscuídos no trabalho de ensino da igreja, contudo, sem atingirem o alvo de levar à igreja a maturidade e alegria através do ensino correto. William Hendriksen fala dos estragos produzidos por estes falsos mestres: “Em vez de ajudar a boa causa, o que fazem é prejudicá-la, destruí-la. Afastam a atenção de Cristo e sua perfeita redenção, e a fixam em um ritual caduco, em méritos e conquistas humanas, insistindo em sua perpetuação e aplicação”.
[1]
O apóstolo Paulo especifica os erros doutrinários destes homens. Eles são chamados de adeptos da corrente da falsa circuncisão. Falsos mestres que ensinavam que se um gentio não guardasse as leis cerimoniais judaicas não seria salvo. Exigiam das pessoas o que Deus não estava exigindo delas. Em suma, não haviam compreendido que a chegada de Cristo representa para a humanidade o início de uma nova fase da relação de Deus com os seres humanos. Tudo agora é mais simples, espiritual e belo. A tendência ao legalismo representava um fardo desnecessário que estava sendo colocado sobre os ombros dos homens e a criação de uma cultura religiosa mais cerimonialista do que viva, mais externa do que de coração, mais preocupada com tradição religiosa do que com Deus e a sua palavra.
O apóstolo Paulo não apenas os ataca frontalmente, mas trata de elevar a verdade de tal forma que todos pudessem vê-la. No verso três ele descreve a essência da verdadeira obra de novo nascimento. Não se trata de qualquer coisa que não seja uma circuncisão no coração que deixa uma cicatriz eterna na alma humana. Esta mensagem não era de uma certa forma nova. O antigo Testamento já havia falado nos mesmos termos (Lv 26:41; Dt 10:16; 30:6; Jr 4:4; Ez 44:7; Jr 6:10). Em que consiste, portanto, o autêntico novo nascimento?

DOUTRINA: A VERDADEIRA OBRA DE NOVO NASCIMENTO SÓ OCORRE QUANDO O CORAÇÃO HUMANO RECEBE O CORTE DE DEUS.

PERGUNTA-CHAVE: QUAIS AS PRINCIPAIS EVIDÊNCIAS DE QUE UM SER HUMANO TEVE SEU CORAÇÃO CORTADO POR DEUS?

1. ADORAÇÃO DE DEUS NO ESPÍRITO.

Observe que o cristianismo não começa com moralidade. Sua preocupação precípua não é de natureza comportamentalista. Seu objetivo não é o de formar adeptos de uma ética fria. Tudo começa com a relação do homem com o seu Criador. A ética cristã não conhece boa obra que não esteja conscientemente vinculada ao ser de Deus: “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”.
[2]
Sendo assim, o primeiro sinal de que um coração foi circuncidado por Deus é essa afeição santa plena de amor por Deus. A obra imediata da graça na vida de um homem é o fascínio pelo ser de Deus.
Tal obra resulta de uma ação do Espírito através da qual o ser humano passa a ter Deus como amável. Seus atributos passam a ser contemplados a partir da consideração de cada um per si, e, da relação harmoniosa de uns com os outros. Causa espanto ao crente ver como que virtudes tão diferentes podem ser encontradas de modo perfeito em absoluta harmonia numa mesma pessoa. Justiça e graça. Santidade e misericórdia. Majestade e condescendência. Onipotência e mansidão.
Um senso de maravilha é estabelecido na alma quando o crente toma consciência do fato de que este que é completamente amável se afeiçoou por um pecador, tornando-o filho amado e perdoado de modo justo.
Esta adoração é inteligente. O crente é capaz de apresentar para si mesmo as razões do seu amor por Deus. De igual modo trata-se de um movimento da alma espontâneo. O Espírito Santo conduz o coração do crente ao amor pelo Pai. Conforme diz Martyn Lloyd-Jones: “... adorar a Deus pelo Espírito significa que nós não temos que forçar a nós mesmos para adorá-lo, mas estarmos cônscios de sermos movidos, e sendo levados, para a adoração”.
[3]

2. GLORIFICAÇÃO EM CRISTO.
A verdadeira vida cristã é Trinitariana. É a adoração ao Pai, no Espírito e por meio de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. As três pessoas da Trindade estão claramente reveladas no texto. Um destaque, contudo, é dado ao Senhor Jesus. O apóstolo Paulo fala sobre uma exultação orgulhosa que resulta do conhecimento salvífico da pessoa de Cristo.
Há pessoas que se gloriam do seu caráter. Outras da sua nacionalidade. Sabemos de muitas que são orgulhosas do seu nível social. Existem aquelas que se vangloriam de sua capacidade intelectual. O apóstolo Paulo menciona o único motivo para uma pessoa nesta vida se gabar: conhecer o Senhor Jesus Cristo. O crente não apenas crê em Cristo. Ele exulta na pessoa do Salvador (Jr 9: 23-24).
O crente exulta na pessoa do Salvador pelos seguintes motivos:
- Em Cristo o crente tem uma demonstração cabal do amor de Deus.
- Em Cristo o crente tem o perdão justo de Deus.
- Em Cristo o crente tem a proteção de Deus.
Martyn Lloyd-Jones faz o seguinte comentário sobre o lugar de Cristo na vida cristã: “Para mim, o grande teste que diferencia aqueles que são cristãos daqueles que não o são é o lugar de Cristo em suas vidas. Ele é central, Ele é essencial, Ele é absoluto?”
[4]
O crente é alguém capaz de falar da sua salvação. Expressar a certeza da obtenção da redenção eterna. Mas, jamais faz estas coisas sem considerar Cristo. Em Cristo ele debocha da morte, rasga a lei, desdenha do inferno, diz: “cala-te!” à sua consciência, expulsa o Diabo e ergue a cabeça esperando a chegada do dia da sua perfeita salvação. Trata-se de alguém livre! Livre da tirania de tentar comprar o amor de Deus.
Por isto o crente exulta. Confiando mais na misericórdia de Cristo do que na sua inocência ele ousa afirmar que todas as exigências da lei concernentes à sua vida já foram satisfeitas por Cristo. Em Cristo a exigência quanto ao pagamento do pecado já foi cumprida. Em Cristo a exigência quanto à obediência a lei com vistas à obtenção da vida eterna já foi alcançada.

3. CORAÇÃO HUMILDE.
A circuncisão do coração não apenas permite ao homem ter uma visão correta do Criador, mas uma visão correta de si mesmo também. O apóstolo Paulo afirma que o regenerado é alguém que não confia na carne.
Não confiar na carne significa:
- Saber que nossas melhores ações vêm sempre acompanhadas de imperfeição.
- Entender que nenhuma boa obra pode apagar a dívida proveniente dos pecados anteriormente praticados.
- Crer que se Deus tiver que salvar o homem será por um ato de pura graça.
Guilhermo Hendriksen define o ato de confiar na carne da seguinte forma: “Em termos gerais, a carne é qualquer coisa fora de Cristo na qual alguém baseia sua esperança de salvação”.
[5]
Um homem pode tentar se aproximar de Deus confiando na carne. Isto significa que esta mesma pessoa julga que é suficientemente justa para recomendar sua alma ao Deus Santo. Ela confia na carne. Nos seus esforços, orações, vigílias, jejuns, dízimos, sacrifícios, nacionalidade, pedigree religioso e justiça própria.
O coração que recebeu a marca do corte do Espírito Santo não ousa se aproximar de Deus sem mencionar o nome de Cristo. Sua confiança não está na carne, mas em Cristo. Em outras palavras, esta pessoa é humilde de espírito (Mt 5:3).

APLICAÇÃO

1. TRAGA À SUA MEMÓRIA REGULARMENTE AS VERDADES CENTRAIS DO CRISTIANISMO.
Não pense que você já conhece o suficiente do evangelho. Ou, que uma vez que certas verdades tenham sido apresentadas a você, não há mais necessidade de sobre elas meditar novamente.
Deixe o pregador tocar em certos temas regularmente. É segurança para sua alma lembrar-se frequentemente dos termos da nova aliança.
Faça um auto-exame intelectual do seu cristianismo. Você crê nestas doutrinas? Está disposto a morrer por elas? Será que há alguma centelha de humanismo na sua teologia? Sua religião é a da graça somente?

2. PROCURE SER SALVO DA RELIGIÃO.
Cuidado com religião. O maior inimigo da verdadeira fé chama-se religião. Lembre-se que Satanás tem seus obreiros. Não espere encontrá-los sempre negando a verdade abertamente. Isto seria muito alarmante! Ele o afastará da verdade mediante seus acréscimos. Ele não procurará mantê-lo afastado da palavra Cristo, mas do Cristo real.
Submeta todos os modelos de espiritualidade ao padrão do Novo Testamento. Em especial ao teste da graça. Na nova aliança trazida por Cristo a doutrina é a graça e a ética é a gratidão!
Fuja dos acréscimos da religião. Quando alguém lhe propuser fazer alguma coisa em nome da religião, pergunte-lhe a seguinte coisa: “de que página das Escrituras Sagradas você tirou este mandamento?” Lembre-se que existe uma liberdade de consciência na Bíblia que diz respeito não apenas aos rudimentos deste mundo oriundos do paganismo, mas uma liberdade referente aos rudimentos do próprio Antigo Testamento. Fique com o Antigo Testamento naquilo que ele é compatível com os termos estabelecidos pela aliança no sangue de Cristo.

3. SIGA O PADRÃO DE ESPIRITUALIDADE DA NOVA ALIANÇA.
Estas são as marcas do verdadeiro cristianismo: adoração a Deus, exultação em Cristo e humildade. Fuja de todo modelo de espiritualidade que o mantenha entretido com as tolices da religião, enquanto você permanece esquecido das porções mais importantes da vontade revelada de Deus para sua vida.
Em meio a tudo o que você tem feito em nome da fé, é capaz de dizer que adora a Deus? É natural em sua vida louvá-lo? Ele lhe é amável? Olhar para Ele produz senso de maravilha no seu coração? Sua vida tem sido uma liturgia? Qual o lugar de Cristo no seu conceito de cristianismo? Você se gaba de conhecê-lo? Compreende que Ele é o único motivo para sua exaltação? Ele é a sua estrela da manhã?
Você tem procurado a humildade de coração? Sua maior tristeza é a percepção que ainda há muito orgulho no seu coração?
Enfim, há simetria em seu cristianismo? Há exultação junto com humildade de espírito? Alegria com temor?

4. SUBMETA-SE A UM AUTO-EXAME A FIM DE SABER SE SEU CORAÇÃO JÁ RECEBEU O CORTE DO ESPÍRITO SANTO.

Uma das áreas da vida espiritual do homem onde a falsificação tem se tornado mais presente e produzido resultados mais prejudiciais é a área da adoração. Na perspectiva de ganhar o favor de Deus os seres humanos tem se submetido às práticas espirituais mais insensatas e profundamente reveladoras de um conceito de Deus que não pode ser resultado de um conhecimento verdadeiro da verdade. Senão, vejamos: que Deus é esse que exige do homem o que avilta a este e torna sua vida inviável? Por que Deus haveria de pedir ao homem que este se afligisse a fim de comprar sua bondade? Podemos conceber a idéia de um Deus santo se satisfazer com velas acesas, peregrinações a lugares supostamente santos a fim de ali encontrá-lo de um modo que ele não poderia ser encontrado em outro lugar? O que falar de todo o trabalho de pessoas que suam a fim de impressioná-lo? Examine, pois, o seu conceito de Deus.
Muitos tornaram-se presunçosos. Sentem-se satisfeitos com suas conquistas religiosas. Confiam na carne. Mas, ninguém entrará no reino de Deus se não se humilhar. Os regenerados não confiam em si mesmos, mas em Cristo. Examine, pois, seu conceito de si mesmo.
Sabemos de pessoas que estão presas a uma religiosidade formal. Não há paixão. Não há a compulsão do Espírito. Muito envolvimento da carne, e pouco envolvimento do coração. A carne até mesmo literalmente ferida, mas sem a ferida santa do coração. Igrejas com liturgia impressa em papel, mas sem liturgia impressa no coração. Cultos com muita energia humana, mas sem atividade divina. Examine, pois, seu conceito de vida cristã.

CONCLUSÃO
Se existe uma coisa que podemos chamar de verdadeira transformação de vida, só pode ser esta que é preconizada pelo apóstolo Paulo. Lá estavam os judeus circuncidando a carne, imersos numa espiritualidade formal e caracterizada por uma preocupação com aquilo que não preocupa a Deus.
Deus estava chamando os crentes da cidade de Filipos a se preocuparem com aquilo que preocupava a Deus. A fugirem de toda a formalidade religiosa a fim de buscarem o culto no Espírito. A exultarem não em desempenho religioso, mas na graça trazida por Cristo. Em fazendo assim, estariam evidenciando que seus corações já haviam sido circuncidados por Deus.
Nele também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo; tendo sido sepultados juntamente com ele no batismo, no qual fostes igualmente ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos”.
[6]


@Antonio Carlos Costa
Igreja Presbiteriana da Barra
Rio, 10 de novembro de 2006.

[1] HENDRIKSEN, Guillhermo. Filipenses Comentario del Nuevo Testamento. Grand Rapids: Subcomision Literatura Cristiana, 1989. p. 169.
[2] Hb 11:6
[3] LLOYD-JONES, Martyn. The Life of Joy and Peace. Grand Rapids: Baker Books, 1999. p. 262.

[4] Ibid., p. 270.
[5] HENDRIKSEN, Guillhermo. Filipenses Comentario del Nuevo Testamento. Grand Rapids: Subcomision Literatura Cristiana, 1989. p. 172
[6] Cl 2:11-12

A IGREJA E O PROGRESSO DO EVANGELHO


FILIPENSES 1: 12-18

INTRODUÇÃO
Um traço marcante da vida do apóstolo Paulo é o seu compromisso com o evangelho. Ao falar, por exemplo, para os presbíteros da igreja de Éfeso ele expressa este apego às boas novas de Cristo de um modo comovente: “Porém, em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus”.
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Esta passagem da carta aos filipenses está entre as que mais no ajudam a ter uma idéia da sua decisão de obrigar-se a viver para o evangelho. Aqui ele encontra-se preso. Vivendo uma das experiências mais amargas que um ser humano pode viver, contudo, sem expressar amargura pelo fato da providência divina haver permitido que ele parasse num cárcere. Pelo contrário, Paulo via a providência divina o colocando em circunstância difícil a fim de que o evangelho fosse divulgado. Esta é a sua convicção: estou passando por esta tribulação porque aprouve a Deus na sua soberania que o evangelho fosse pregado entre os romanos desta forma.
O que chama a atenção do leitor atento desta passagem é o fato da causa supra mencionada do seu encarceramento ser suficiente para que ele obtivesse grande consolação. Sua alegria consistia no seguinte fato: “... as coisas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho”. Para o apóstolo Paulo pouco importava o curso de vida que a providência determinasse para ele desde que o evangelho fosse divulgado através de seu ministério.
O que o levava a não se preocupar com a própria sorte? Qual a razão deste apego ao evangelho? Que preço estava disposto a pagar a fim de que o evangelho fosse proclamado?
As respostas para estas perguntas são fundamentais caso queiramos expressar o mesmo nível de amor pelo evangelho que o apóstolo Paulo expressou. Sendo assim, vale a pena perguntarmos: o que o há na mensagem do evangelho que o fazia esquecer-se de sua própria vida e tivesse como maior objetivo de sua existência o progresso do evangelho? Aliás, talvez fosse melhor, de uma certa forma, reformular a pergunta: por que a espécie de vida que ele amava era uma vida de renúncia a todas as coisas, com o propósito de se fazer uma dedicação integral da própria existência a divulgação de uma mensagem?
Nós só entenderemos o coração do apóstolo Paulo quando levarmos em consideração o fato de que para ele o conteúdo da mensagem do evangelho era por demais sublime. Sendo assim, fazia todo o sentido ele não se importar com o curso de vida que a providência determinasse para ele desde que a mensagem gloriosa do evangelho fosse proclamada. Em que consiste a sublimidade deste conteúdo?

I-A SUBLIMIDADE DO CONTEÚDO DO EVANGELHO COM O QUAL DEVEMOS ESTAR COMPROMETIDOS.

1. O EVANGELHO É SUBLIME POR SE TRATAR DAS BOAS NOVAS DE DEUS PARA A HUMANIDADE. V. 12.


Se de fato queremos entender a disposição do apóstolo Paulo de dar sua vida por uma mensagem precisamos partir da análise do significado da própria palavra evangelho. A palavra grega significa boas novas. Seu significado pode ser comparado a notícia trazida por um mensageiro recém chegado do campo de batalha que anuncia aos que ficaram na cidade que a batalha foi vencida.
Trata-se de uma notícia tão maravilhosa que os que a receberam devem envidar todo esforço possível para que jamais seu conteúdo fique aprisionado. Por isso, o apóstolo Paulo via sentido no seu aprisionamento. Ele entendia que se o cerceamento de sua liberdade representava liberdade para o evangelho seu sofrimento estava cumprindo um propósito glorioso.
Qual a essência dessa boa notícia? Talvez não encontremos melhor definição dela do que a que foi apresentada pelo próprio apóstolo Paulo na carta segunda carta aos coríntios capítulo cinco versículo dezenove: “... Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação”.
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Isto é o evangelho. Não se trata de dizer ao mundo como este deve se organizar politicamente. Seu objetivo supremo não é divulgar o melhor tratamento para nossos problemas psicológicos. Não visa dizer ao homem o que ele pode fazer para prosperar nesta vida. Iria até mais longe. Não é dizer que o mundo tem um Criador. Que a realidade última é pessoal. Não significa bradar: a verdade existe e pode ser conhecida pelo homem. O evangelho tem como corolário tudo o que acabei de mencionar, mas sua mensagem central é a gloriosa notícia que Deus no seu infinito amor chama a humanidade para se arrepender dos seus pecados e crer na oferta graciosa de salvação que é oferecida por meio de Cristo.
O que o evangelho proclama é a existência de um Deus santo. Um ser que não tolera o pecado pelo simples fato do pecado não fazer parte de sua própria existência. Ele é amor! As três pessoas da Trindade bendita vivem um relacionamento de santidade e amor. Por isto, esse Deus tem julgado a terra e avisado das mais diversas formas aos seres humanos que um dia haverá de julgar os vivos e os mortos. O evangelho é o anúncio da gloriosa notícia de que este Deus está chamando os homens para acertarem as contas com ele antes da chegada deste dia.
Como os homens haverão de acertar suas contas antes do juízo vindouro? Como pagar pelos pecados passados? O que fazer quanto aos pecados que inevitavelmente virão? O evangelho proclama que os homens podem quitar suas dívidas mediante um ato de confissão. Esta confissão envolve o reconhecimento do pecado, a decisão de abandoná-lo mediante arrependimento e a confiança que todas as transgressões podem ser quitadas mediante a fé em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O Rei veio na pessoa do seu Filho tratar dos rebeldes que se recusaram viver de acordo com sua vontade. E o seu Filho em vez de destruí-los decidiu dar sua vida por eles a fim de que a ira do Rei fosse aplacada e seus súditos rebeldes reconciliados pela fé por meio de um modo santo e justo.

2. O EVANGELHO É SUBLIME POR SE TRATAR DE PALAVRA DE DEUS. V. 14

Todos sabemos que houve homens na história que deram sua vida por uma ideologia. Na Grécia antiga homens se consagraram a obra de divulgação de sua filosofia. Sócrates, por exemplo, abriu mão da sua própria vida por causa do seu compromisso com a ética e a verdade. Mais recentemente testemunhamos do ardor com que marxistas defenderam suas idéias acerca do modo como as nações deveriam regular a relação do patrão com o empregado. Muitos já deram a vida por uma mentira sem saber que morriam por nada. Outros se consagraram ao ensino do que sabiam ser mentiroso.
O caso do apóstolo Paulo, e, consequentemente de todos os cristãos, difere dos demais devido a dois fatores: o primeiro, o conteúdo da mensagem que é proclamada. E, em segundo lugar, a origem dessa mesma mensagem.
Como vimos acima, pregar o evangelho não é tratar de trivialidades. É anunciar ao mundo a santidade, justiça e amor de Deus, e, ao mesmo tempo, ensinar ao homem a solução para o seu problema mais grave.
Pregar o evangelho, contudo, é glorioso por se tratar do anúncio da palavra de Deus. É isto o que o apóstolo Paulo menciona no verso catorze. Não significa a consagração da vida a uma ideologia humana. Isto pode até ser bom, caso a ideologia seja de grande proveito para todos por ser verdadeira. Pregar o evangelho, no entanto, é pregar o que é verdadeiro e atestado pelo selo divino como tal. Desse modo, o evangelho deve ser visto por todos nós como verdadeiro. Sua origem é divina. O que necessitamos de destacar, entretanto, é que o evangelho é uma verdade que foi autenticada de um modo todo especial por Deus. É palavra de Deus. É a verdade que Deus fez acima de todas as outras que fosse reconhecida como tal.
Como o evangelho foi autenticado? Muito se poderia falar sobre isso. Este é um tema que pertence ao ramo da apologética. Mas, permita-me mencionar pelo menos três fatos relacionados a pergunta supra. Primeiro, pelos sinais que acompanharam a pregação apostólica (Gl 3:5; II Co 12:12; Jo 20: 30-31). Os milagres tiveram como meta precípua atestar a origem divina da mensagem. Segundo, pela excelência do seu conteúdo. Sei que trata-se de uma argumento que só serve para o crente. O incrédulo é incapaz de perceber esta beleza. Está cego. Não tem senso espiritual. Mas, o crente é alguém que não consegue servir a outro Deus que não seja o do evangelho pelo simples fato desse Deus ser incomparavelmente o mais belo. E esta sua beleza é atestada pelo evangelho. Terceiro, o testemunho interno do Espírito Santo. Ninguém se converte sem razões, mas ninguém se converte pela razão. O cristianismo para quem está do lado de dentro é o que de mais racional existe, mas para quem está do lado de fora é absurdo. A própria Bíblia admite que as coisas são assim (I Co 2:14). O que impede um homem de se encantar com o evangelho? Para o cristianismo o homem sem Cristo apesar de ter um aparelho mental idêntico ao do crente, não se utiliza deste mesmo aparelho da forma como o crente o faz. O crente é alguém que recebeu este poderoso testemunho interno da verdade que o leva a nunca mais nega-la pelo desejo inconsciente de fugir do Deus real. Existem razões objetivas para o crente crer na veracidade do evangelho e que podem ser compartilhadas com os incrédulos. Existem, contudo, certezas incompartilháveis que somente os que foram convencidos pelo Espírito Santo podem testemunhar.
O apóstolo Paulo estava pronto para dar sua vida pelo evangelho devido ao fato de estar absolutamente convencido da origem divina da sua mensagem:
“... estimulados pelas minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus”.

3. O EVANGELHO É SUBLIME POR SE TRATAR DA REVELAÇÃO DA PESSOA DE CRISTO. VS. 15,18

Pregar o evangelho é pregar Cristo. Não há evangelho sem Cristo. E pregar sobre a pessoa bendita do Salvador é proclamar algo sublime.
Pregar Cristo é pregar sobre o indubitavelmente maior paradigma de vida santa. Se queremos viver a vida que Deus tenciona para todos os seres humanos, temos que olhar para Cristo. Primeiro, temos que olhar para o seu intenso amor pelo Pai. Neste mundo de gente que se interessa por tudo, menos pelo seu Criador, o Senhor Jesus se sobressai como aquele cuja comida consistia em fazer a vontade do Pai (Jo 4:34). Sua obsessão era fazer o Pai sorrir para sua vida. Segundo, temos que olhar para o seu intenso amor pelos seres humanos. Nele vemos o testemunho do amor paciente que vence a lerdeza humana em fazer a vontade de Deus. O amor misericordioso que toca nos intocáveis. O amor longânimo que suporta a ingratidão e afronta. E o amor gracioso que passar por cima dos pecados e ama o que não é digno.
Pregar Cristo é apresentar ao mundo a prova mais cabal de que Deus é bom. Há traços da bondade divina espalhado por todos os cantos desse planeta. Porém, frequentemente os homens se deixam convencer que o sofrimento humano dá um testemunho mais forte da indiferença divina do que os traços da sua bondade dão do seu amor. Para os homens há uma explicação para o sofrimento humano: Deus não se importa. Mas, para eles não há explicação para a felicidade humana. Há prazer e dor neste mundo em que vivemos. A nossa raça julga que é possível fazer uma avaliação do todo à partir da dor deixando as manifestações da bondade a cargo de um Deus esquizofrênico. O homem não atenta para o fato de que a beleza da vida deve sua explicação a existência de um Deus bom, e, o sofrimento humano a existência de um Deus santo que trata seres racionais e responsáveis de modo honesto e justo.
Cristo é o testemunho maior da bondade desse Deus para a vida de todo aquele que aceita o testemunho que a Bíblia dá sobre sua vida sem pecado. Nele temos o testemunho do “Deus conosco”. O amoroso “Emanuel”. A partir de sua vinda a raça humana deveria considerar não apenas o sofrimento dos filhos dos homens, mas o sofrimento do Filho de Deus. Esse é o novo enigma: por que o Filho de Deus teve que sofrer? O absurdo da morte do filho de Deus torna todos os demais não mais capazes de questionar o amor divino.
Cristo é a resposta de Deus para o problema do pecado. O evangelho é sublime por que harmoniza o amor e a justiça de Deus de modo insuperável. Em Cristo Deus perdoa o homem de modo justo. Seu amor pode ser derramado livremente na vida daqueles que tiveram seus pecados expiados pelo sacrifício do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Cristo, acima de tudo é a maior revelação que Deus fez de si mesmo. Se queremos conhecer a Deus precisamos vê-lo em ação na vida do seu único Filho. Esta é a maravilha das maravilhas, conhecer a Deus através de Cristo: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”.
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A pergunta que precisamos responder agora é a seguinte: o que deve ser capaz de fazer por esta mensagem aquele que nela creu?

II-O QUE DEVEMOS FAZER PELO EVANGELHO?

1. SENTIR REGOZIJO QUANDO A PROVIDÊNCIA USAR NOSSO SOFRIMENTO PARA O PROGRESSO DO EVANGELHO. V. 12

O apóstolo Paulo não conseguia ver sua vida dissociada do evangelho. Sua existência como um todo era vista em termos do evangelho. Sendo assim, em sua opinião o cuidado providencial de Deus pela sua vida estava conectado aos propósitos desse mesmo Deus de se utilizar da vida de um ser humano a fim de tornar o seu evangelho conhecido.
É digno de nota observar que tudo isto se ajusta perfeitamente ao conteúdo sublime do evangelho. Sendo o evangelho o que é, representando o que representa, não é imoral Deus de acordo com seus decretos eternos permitir que um ser humano passe por tribulações a fim de que a causa do seu evangelho prospere.
Para o apóstolo Paulo não havia nada de anormal no seu aprisionamento. Ele não via Deus como comprometido acima de tudo com sua felicidade temporal, mas com o testemunho do evangelho através de sua vida.
Martyn Lloyd-Jones:
Paulo não resmunga e se queixa, não apenas porque sua atitude para com Deus era correta, mas também porque sua atitude para consigo mesmo era correta... ele não pensava de si mesmo apenas como si mesmo, ele não estava interessado em si mesmo como tal... o segredo de Paulo foi que ele amava a Cristo numa extensão que ele havia esquecido de si mesmo completamente. Paulo não prisão não dizia, ‘por que isto aconteceu comigo?’ Ele dizia, ‘como isto afeta o evangelho?’
Aplicação: Glorifique a Deus por ele estar usando seus sofrimentos para o progresso do evangelho.

2. APROVEITAR AS CIRCUNSTÂNCIAS DA VIDA, ESPECIALMENTE AS MAIS ADVERSAS, PARA DAR TESTEMUNHO DO EVANGELHO. V. 13

Ele se via como um encarcerado de Cristo. Isto fez toda a diferença para ele naquela prisão. Ele não estava ali por mero acaso. Estava ali por causa dos planos santos, eternos e sábios de Deus. Ele era um prisioneiro de Cristo.
William Hendriksen: “Quando o apóstolo foi a Roma como preso, foi o evangelho que realmente entrou na cidade imperial”.
E por definir sua vida a partir da sua relação com Cristo, e, não por qualquer outra coisa, tais como afirmação pessoal, conforto, fama entre outras coisas mais, julgava que na prisão sua tarefa não era pensar na liberdade, mas em como testemunhar do evangelho.
William Hendriksen: “A pergunta primordial que ele fazia a si mesmo não era: ‘O que sucederá a mim?’ senão: ‘Em que medida se vê afetada a causa do evangelho pelo que a mim me ocorre?”
E foi o que ele fez. Sua presença naquela prisão foi usada por Deus para que muitos conhecessem o evangelho de Cristo. E, assim, entendemos o porquê da tribulação. A tribulação cria o cenário perfeito para a pregação do evangelho. É da natureza humana acreditar na mensagem daquele que vive o que prega, especialmente quando a fé professada se mantém altaneira na adversidade.
William Hendriksen:
Os guardas revezavam uns com os outros, e desta forma muitos deles entraram em contato com o apóstolo dos gentios... e o que aprenderam logo se divulgou... somos guardas de um preso extraordinário... e, desta forma a notícia correu de guarda a guarda, a suas famílias, e a casa de César, e assim ‘a todos os demais’, ou seja, aos habitantes de Roma em geral”.
Aplicação: Aproveite as circunstâncias adversas que você tem enfrentado a fim de promover o avanço do evangelho mediante o seu bom testemunho na dor.

3. VIVER DE MODO A SERVIR DE ESTÍMULO PARA OS IRMÃOS EM CRISTO CRESCEREM NO COMPROMISSO COM A DIVULGAÇÃO DO EVANGELHO. V.14

O seu testemunho tornou-se num poderoso estímulo para que os demais crentes da cidade de Roma pregassem o evangelho. Quando eles viram o preço que o grande santo de Deus estava pagando por causa do seu amor pelo evangelho, julgaram que não lhes restava alternativa senão manifestar o mesmo nível de compromisso.
Eles se tornaram ousados e passaram a falar com mais desassombro (afobos). Não resta dúvida que deveríamos todos nós viver assim. Nossa vida deveria causar constrangimento em todos os companheiros de fé. Ser um grande estímulo para que homens e mulheres se envolvessem com o evangelho.
Tudo se tornou claro para o apóstolo Paulo. Seu sofrimento estava trazendo benéficos para muitos. Ele se alegrava por estar caminhando nos passos do seu Senhor. Com Cristo ele aprendera que é necessário que pessoas morram a fim de que outras ganhem vida.
Aplicação: pastores que largam família deveriam se lembrar do efeito desta decisão na vida dos irmãos na fé. Outros, que trocam o ministério pela política deveriam levar isto em consideração também. Igrejas que deixam de pregar o evangelho a fim de crescerem numericamente fazem com que seus membros não levem o evangelho a sério.
Aplicação: que o seu testemunho seja um estímulo para seus irmãos na fé consagrarem-se desempedidamente ao progresso do evangelho.

4. ENVOLVER-SE COM O EVANGELHO PELO EVANGELHO SOMENTE. VS. 15-18.

Aqui o apóstolo Paulo traça um vivo contraste entre os que pregam o evangelho por amor ao evangelho e os que pregam o evangelho por amor a si mesmos. As diferenças principais são as seguintes:
- Pregar o evangelho por motivos escusos e pregar o evangelho de boa vontade (v.15).
- Pregar o evangelho para auto-afirmação e pregar o evangelho por amor (v. 16-17).
- Pregar o evangelho por pretexto (simulação) e pregar o evangelho por verdade (v.18).
Parece que o apóstolo Paulo estava vivendo a seguinte experiência. Alguns pregadores entraram numa competição na qual ele se recusou a participar. A intenção desses homens era a de granjearem fama e de alguma forma mostrarem ao apóstolo Paulo que tinham um desempenho melhor do que o dele. Ele podia perceber com muita clareza que aqueles homens não eram movidos pelos mesmos sentimentos que habitavam no seu coração.
William Hendriksen:
Não se deve esquecer que em Roma havia uma igreja muito antes da chegada de Paulo. E, portanto, quase sem lugar a dúvidas, é lógico pensar que certos pregadores haviam adquirido certa fama entre os irmãos. É fácil imaginar que, com a chegada de Paulo e especialmente com a divulgação de sua fama por toda a cidade, estes conhecidos pregadores começaram a perder algo de seu reconhecido prestígio. Não passou muito tempo sem que seus nomes fossem empalidecendo, e que em conseqüência fosse despertada neles a inveja pelo apóstolo Paulo”.

Para o apóstolo Paulo, entretanto, desde que eles estivessem pregando o evangelho, seu coração se regozijava, mesmo que compreendesse que alguns daqueles homens o invejavam a faziam o que faziam por má intenção.
Não encontramos aqui nenhuma espécie de espírito ecumênico. Não há vestígio de negociação da verdade. Ele não está falando que se regozijava com o fato de pessoas estarem distorcendo o evangelho. Sua alegria consistia no fato de ele perceber que Deus estava usando aqueles homens insinceros para a promoção do seu evangelho. Era tudo o que o apóstolo Paulo queria.
Há homens que adoecem por verem outros alcançarem mais fama e pessoas do que eles no trabalho de pregação do evangelho. O grande apóstolo não via seu envolvimento com o evangelho como uma oportunidade de adquirir fama e poder, mas de servir ao seu semelhante e expandir o reino de Deus.
Neste ponto da sua carta nos deparamos com um testemunho maravilhoso sobre o espírito com que o evangelho deve ser pregado.
- O evangelho deve ser pregado com desassombro (v.14).
- O evangelho deve ser pregado com boa vontade (v.15).
- O evangelho deve ser pregado por amor (v.16).
- O evangelho deve ser pregado por apreço a verdade (v.18).
Aqui está o teste para sabermos se de fato amamos o evangelho: sempre nos regozijamos quando ele é proclamado?
Aplicação: pastor não pode adoecer porque a igreja de um outro pregador cresce mais do que a sua. Que todo movimento de sua vida no sentido de promover o evangelho seja fruto do seu zelo pela verdade, amor pelos perdidos e anelo de ver o nome do seu Deus glorificado.

5. DEFENDER O EVANGELHO. V. 16

O apóstolo Paulo revela no verso dezesseis que parte do seu trabalho de pregação do evangelho envolvia a defesa da mensagem. Havia, sendo assim, uma forma positiva de apresentá-lo, mas ao mesmo tempo uma forma que poderíamos considerar positiva e negativa. Ele deveria fazer afirmações positivas do evangelho. Proclamar o seu conteúdo. Percebemos, porém, que ele entendia que a ele cabia defender o evangelho dos ataques desferidos pelos falsos mestres e pelos incrédulos.
D. A. Carson:
O que há na fé cristã que excita você? O que consome o seu tempo? O que o desperta? Hoje existem uma infinidade de subgrupos de cristãos confessos que investem enorme quantidade de tempo e energia em um tema ou outro: aborto, pornografia, escola, ordenação feminina (contra ou a favor), justiça econômica, um certo estilo de culto, a defesa de uma particular versão da Bíblia, e muito mais. A lista varia de país para país, não são poucos os países uma agenda completa urgente, de demandas periféricas. Nem por um momento eu estou sugerindo que nós não deveríamos pensar sobre estas matérias... mas quando tais matérias devoram a maior parte do nosso tempo e paixão, cada um de nós deve responder: De que modo eu estou confessando a centralidade do evangelho?

Martyn Lloyd-Jones: “Parece que a idéia original foi a de um homem se defendendo numa ação legal. Alguém traz alguma acusação contra ele e o homem faz sua defesa e responde ao juiz”.
A igreja sempre haverá de carecer deste tipo de ministério. Respostas honestas devem ser dadas às perguntas honestas que nos são feitas. Quem ama o evangelho haverá de manifestar interesse por um preparo intelectual adequado a fim de que seu conteúdo faça sentido para os que ouvem sua mensagem.
Martyn Lloyd-Jones:
Quando os homens atacam o evangelho nestes vários motivos, nós deveríamos ser capazes de enfrentar suas objeções e dar nossa resposta. Isto significa atividade de nossa parte, isto significa estudar e familiarizarmo-nos com os fatos. Eu não acho em nenhum lugar do Novo Testamento uma figura da igreja como corpo de pessoas que passam o todo do seu tempo cantando ou apenas relatando suas experiências e tendo um assim chamado bom tempo espiritualmente. De modo algum! Eles são chamados para a defesa do evangelho; o ataque esta aí e nós devemos dizer alguma coisa como resposta”.

Aplicação: Carecemos de pessoas que se dediquem a tarefa apologética.

III-CONCLUSÃO

Que privilégio conhecer o evangelho! Mas, que responsabilidade! Conhecemos o seu conteúdo. Sabemos que revelação faz do caráter de Deus. E, de igual modo, temos um claro entendimento do quanto o pecador carece de conhecê-lo. Como haveremos de viver, nós que tivemos contato com sua verdade?
Certamente a resposta que resume a todas que foram dadas por esta passagem é a seguinte: um compromisso com o progresso do evangelho que seja digno da sua sublimidade. O valor incalculável do evangelho merece a consagração de toda a nossa existência para o seu progresso.


©ANTONIO CARLOS COSTA
IGREJA PRESBITERIANA DA BARRA
ABRIL/2006

[1] Atos 20:24
[2] II Co 5:19
[3] Cl 1:15