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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A PREGAÇÃO NA PATRÍSTICA: UMA ANÁLISE DO PONTO DE VISTA DA DIDAQUÊ SOBRE A RELAÇÃO DA IGREJA COM OS PREGADORES


I. INTRODUÇÃO.
O Novo Testamento considera o ministério de pregação essencial para a vida da igreja. Os motivos são bastante claros: primeiro, através dele a igreja vem a existência, pois juntamente com o trabalho evangelístico dos demais cristãos, pecadores são salvos por meio da pregação de homens vocacionados. Por isso encontramos o Senhor Jesus pregando o evangelho: “E percorria Jesus tôdas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando tôda sorte de doenças e enfermidades”
[1], como também estimulando seus discípulos a fazerem o mesmo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo; ensinado-as a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos”.[2] Se houve um mandamento que os discípulos trataram de obedecer foi o de pregar a Palavra de Deus mesmo em face das mais duras perseguições: “Mas Pedro e João lhes responderam: julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos”.[3] Os apóstolos tinham consciência do fato de que a igreja vem à existência pela pregação do evangelho: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor, será salvo. Como, porém, invocarão aquele em que não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?”[4]
Em segundo lugar, estes que são salvos nutrem-se espiritualmente mediante a exposição da verdade bíblica. Não são poucas as passagens bíblicas que revelam a saúde da igreja depender da fiel exposição da verdade revelada: “Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com tôda a longanimidade e doutrina”.
[5] Tem que haver no seio da igreja gente que fala. A comunicação do conteúdo da verdade é o principal meio para a edificação da igreja:
E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para o outro, e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.
[6]

John Stott mencionando E. C. Dargan afirma: “A pregação é distintivamente uma instituição cristã”.
[7] A igreja não teria chegado até o nosso século se não fosse o ministério de pregação. O cristianismo é um religião doutrinária. Seu sucesso depende da assimilação das suas verdades centrais. E o meio por excelência de comunicação dessas verdades é a pregação das Escrituras Sagradas.
O conceito altíssimo que o ministério de pregação tem nas Escrituras Sagradas tem sido visto ao longo da história da igreja na vida de inúmeros líderes cristãos eminentes. João Crisóstomo, que pregou durante doze anos na Catedral de Antioquia, antes de se tornar Bispo de Constantinopla em 398 d.c. afirmava: “Um único meio e caminho de cura nos tem sido dado... e esse é o ensino da Palavra”.
[8] Lutero acreditava que um pregador expondo a Bíblia nada mais era do que Deus falando pela intermediação de um homem: “A boca e a palavra do pregador que escutei não são as suas, mas são a palavra e a pregação do Espírito Santo, que por estes elementos exteriores produzem a fé interiormente e assim me santificam”.[9] Para o mais conhecido pregador batista de todos os tempos, Charles Spurgeon, a igreja não vive sem o púlpito:
Não procuro outra forma de converter pessoas além da simples pregação do evangelho e da abertura dos ouvidos dos homens para ouvi-la. No momento em que a igreja de Deus menosprezar o púlpito, Deus a desprezará. Tem sido através do ministério que o Senhor tem se agradado em reavivar e abençoar suas igrejas.
[10]

Calvino não tinha ponto de vista menos exaltado do ministério de pregação:
Singular benefício atesta o Senhor prodigalizar aos homens em suscitando-lhes mestres, onde ordena ao Profeta exclamar ‘formosos serem os pés e bendita a vinda dos que anunciam a paz’ (Is 52.7) e quando aos Apóstolos chama ‘luz do mundo’ e ‘sal da terra’ (Mt 5. 13,14). Nem mais esplendidamente podia ornar-se este ofício do que quando disse: ‘quem vos ouve, a Mim Me ouve, quem vos rejeita, a Mim Me rejeita’.
[11]

Os grandes momentos da igreja no passado foram caracterizados pela presença de homens ungidos ocupando o púlpito e expondo a Bíblia com fidelidade. Isto é fato fora de controvérsia. Os períodos de avivamento sempre tiveram a marca de grandes pregadores anunciando a verdade com poder espiritual incomum. Quem ressalta fato tão fácil de ser provado na história da igreja é Martyn Lloyd-Jones: “Não se pode ler a história da igreja, mesmo de forma superficial, sem perceber que a pregação sempre ocupou posição central e predominante na vida da igreja, particularmente no protestantismo”.
[12]
Porém, muito a igreja tem sofrido com a pregação dos chamados falsos profetas. No Antigo Testamento uma das principais causas do declínio da vida espiritual do povo de Israel foi a pregação desprovida do conteúdo da verdade. Por isto o povo era admoestado por Deus a não dar ouvido a certos pregadores: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvidos às palavras dos profetas que entre vós profetizam, e vos enchem de vãs esperanças; fala as visões do seu coração, não o que vem da boca do Senhor”.[13] O mesmíssimo problema teve que ser enfrentado pelos cristãos do período apostólico. Observa-se com clareza que as epístolas em geral foram escritas para tratar dos problemas doutrinários ocasionados pelos falsos mestres. Na carta aos Gálatas vemos o apóstolo Paulo admoestando os Gálatas nos seguintes termos: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho; o qual não é outro, senão que há alguns que vos pertubam e querem perverter o evangelho de Cristo”.[14] Falando sobre o declínio da igreja nos Estados Unidos Richard Lovelace faz um comentário que muito nos ajuda a entender como a igreja pode ser desencaminhada pela pregação oca: “Muitas congregações americanas estiveram efetivamente pagando seus ministros para protegê-las do Deus real”.[15] Todo o estrago produzido pelo liberalismo teológico em centenas de congregações cristãs em tantas cidades do mundo ocidental, é a principal prova da história recente do cristianismo sobre o quanto a pregação infiel pode adoecer a igreja.
Desde os seus primeiros anos de vida a igreja se viu na necessidade de estabelecer regras claras quanto a relação dos crentes com os pregadores da Palavra de Deus. Os motivos relacionam-se a dupla realidade exposta acima. Os benefícios que a igreja pode auferir da pregação da Palavra de Deus são incalculáveis. Por isto sempre foi necessário que se estimulasse os cristãos a não negligenciarem a participação nas reuniões públicas onde a Palavra de Deus é ensinada. Os riscos, contudo, da igreja ser contaminada pelo vírus da falsa pregação são de igual modo evidentes. Sendo assim tem sido fundamental que a igreja seja alertada quanto ao perigo de ser destruída por mensageiros de Satanás.
A Didaquê é um documento profundamente revelador dos problemas iniciais que a igreja enfrentou com o ministério de pregação. Ao mesmo tempo que leva todos os crentes a estimarem os verdadeiros pregadores, apresenta diretrizes para que a comunidade da fé não seja enganada por homens vis que se passam por mensageiros de Deus.
O motivo deste presente trabalho deve-se ao fato da Didaquê ser um documento atual que pode ajudar nossas igrejas a aprenderem lidar com o lado luminoso e sombrio da pregação. Vivemos dias de muita pregação falsa em nossa nação. Certamente uma das principais fraquezas do protestantismo atual reside na aversão dos que se auto intitulam como tais a um cristianismo que seja doutrinário. Observa-se uma grande preocupação em que o culto seja agradável, mas pouca com relação ao preparo do ministro. Nossos crentes conhecem quase nada da sua herança teológica. O que é uma pena, pois quanto a igreja de Cristo foi enriquecida com o advento do protestantismo, em especial na sua versão calvinista
O povo evangélico não sabe diferenciar os pregadores. É capaz de ouvir pessoas que advogam pontos de vista absolutamente diferentes e dizer que estão falando a mesma coisa. E sem sombra de dúvida temos uma igreja com as portas abertas para os mais diferentes tipos de erros doutrinários. Mas, o problema não reside tão somente na falta de discernimento do nosso povo. É necessário também que haja um resgate do valor de um ministério fiel de exposição das Escrituras. Nossas igrejas precisam reconhecer que a presença de um ministro fiel numa igreja local é uma grande expressão do amor e cuidado providencial de Deus
O que me proponho a fazer é mostrar a origem deste documento de considerável valor para a história da igreja, o seu tratamento dado a questão da pregação, os pontos em comum com as diretrizes de outros pais da igreja, sua harmonia com as Escrituras Sagradas, e, por fim, gostaria de aplicar o conteúdo da Didaquê a realidade que nos cerca.

II. A HISTÓRIA E RELEVÂNCIA DA DIDAQUÊ.

1.1. SUA LOCALIZAÇÃO NA HISTÓRIA ECLESIÁSTICA.
A Didaquê faz parte do conjunto de literatura de uma época da história da igreja chamada de período dos Pais Apostólicos. No dicionário Oxford da igreja cristã encontramos a seguinte definição deste período:
Estes são aqueles Pais do tempo imediatamente depois do período do Novo Testamento cujos trabalhos sobreviveram completamente ou em parte. Eles são Clemente de Roma, Inácio, Hermas, Policarpo, e Papias, e os autores da Epístola de Barnabé, a Epístola a Diogneto, 2 Clemente, e a Didaquê.[16]

A era dos Pais Apostólicos é um dos períodos da história do cristanismo onde o peso da tarefa de se edificar a igreja de Cristo foi mais sentido. Foi essa a geração que teve contato final com os que viram o Senhor Jesus pessoalmente e os sucedeu.
O contato com a literatura e história desta época deixa-nos com uma dupla impressão: a primeira, é que apesar da proximidade com os discípulos originais de Cristo esta geração trouxe para dentro da igreja material estranho ao conteúdo da mensagem apostólica. Nota-se uma tendência ao legalismo que não encontramos no Novo Testamento. Parece que não foi fácil para esta geração se abstrair da cultura que a cercava e ficar com a mensagem da graça de Deus que está em Cristo. Isto é tão forte que temos a nítida impressão que os reformadores que viverem aproximadamente 1500 anos depois estiveram mais próximos do espírito do Novo Testamento do que os Pais Apostólicos. Como afirma Roger Olson:
... alguns dos sucessores dos apóstolos introduziram idéias próprias na corrente da teologia da igreja primitiva... esses pais da geração que se seguiu aos apóstolos deram ao evangelho interpretação própria, o que começou a distanciá-lo dos grandes temas da graça e fé tão marcadamente enfatizados por Paulo e outros apóstolos e a aproximá-lo do evangelho de uma “nova lei” de conduta e comportamento agradável a Deus.
[17]

Cometeríamos, contudo, uma injustiça se nosso comentário sobre esse período da história da igreja se resumisse apenas às diferenças dos Pais Apostólicos para com os Apóstolos mesmos. Esta geração selou seu testemunho com sangue. E teve que defender a fé contra os ataques sofridos por inimigos declarados e ocultos da fé cristã. Sem dúvida não seríamos o que somos como igreja neste início do século XXI sem os Pais do primeiro e segundo séculos da era cristã. Esses mantiveram intactas verdades que caso tivessem sido negligenciadas ou banalizadas descaracterizariam por completo a fé cristã. Roger Olson não exagera ao dizer:
Os Pais Apostólicos devem ser admirados e louvados pela vigorosa defesa que fizeram da encarnação de Deus em Jesus Cristo contra as negações dos gnósticos. Alguns morreram como mártires nas mãos das autoridades romanas e, portanto, devem ser muito respeitados por confessar sob o risco de morte a crença em Cristo e no evangelho, mesmo sob perseguição. Sem dúvida, sua grande relevância aqui é terem sido os primeiros teólogos do cristianismo.
[18]

A Didaquê, sendo assim, é um documento deste período. Escrita em meio às ameaças a fé e inevitáveis crises que a igreja teve que enfrentar. Um documento que nos ajuda a entender um pouco da vida dos cristãos pós-apostólicos e as diretrizes dadas pela liderança da igreja para a solução de problemas sérios que aquela geração de crentes teve que enfrentar.

1.2. AUTORIA, VALOR HISTÓRICO E CONTEÚDO.
O seu nome completo é Didaché tou Kuríou diá ton dódeka apostólon tois éthnesin (ensino do Senhor ao gentios através dos doze apóstolos). O termo grego Didaquê significa doutrina. Sua autoria e data da redação final têm sido objeto de debate entre os estudiosos. Justo Gonzáles admite que sua data de composição é de todo insegura, mencionando o fato de alguns pensarem que foi escrita antes da destruição de Jerusalém no ano 70, enquanto outros opinam que foi escrita no terceiro século.
[19] Porém, o próprio Gonzáles crê que a Didaquê foi escrita no final do primeiro século ou princípio do segundo.[20] Frangiotti acredita que sua autoria deve-se a um ministro sagrado de idade avançada, formado na escola de Tiago, o Menor, que teria imigrado para a Síria por ocasião da guerra civil. O documento teria sido colocado na forma presente no máximo até 150, embora pareça provável uma data mais próxima do final do primeiro século.[21] Seu lugar de composição seria alguma pequena comunidade da Síria ou Palestina, distante das correntes centrais do pensamento cristão. O que na opinião de Gonzáles explicaria o porque do documento conter significativas diferenças em relação ao conteúdo da mensagem apostólica.[22]
Um dos fatos que ressaltam a importância da Didaquê na história do cristianismo é a quantidade considerável de menções de passagens suas em escritos da igreja antiga. Foi um documento que sem sombra de dúvida teve ampla circulação no primórdios do cristianismo, sendo lido nos cultos cristãos e tido por um homem como Clemente de Alexandria como documento inspirado.[23] Mas, pela providência de Deus este documento falto da beleza e de harmonia em seu todo com o Novo Testamento, não entrou no Cânon sagrado. Eusébio de Cesarea, o mais antigo historiador da igreja, revela que a Didaquê não gozava da autoridade ampla dos escritos do Novo Testamento: “Entre os espúrios sejam listados: o escrito dos Atos de Paulo, o chamado, Pastor e o Apocalipse de Pedro, e além destes, a que se diz Carta de Barnabé e a obra chamada Ensinamento dos Apóstolos (Didaquê)...”.[24] O que não desfaz seu valor histórico e importância de seus ensinamentos para a vida da igreja de todos os séculos.
Na opinião de Justo Gonzáles seu descobrimento no ano de 1873 pelo arcebispo Filoteo Briennios na cidade de Constantinopla, está entre “os descobrimentos literários mais importantes dos tempos modernos”.
[25] Para J. Quasten a Didaquê vem a ser: “O documento mais importante do período sub-apostólico e a mais antiga fonte de lei eclesiástica que possuímos... Enriqueceu e aprofundou de modo extraordinário o nosso conhecimento dos primórdios da igreja”.[26]
Seu conteúdo pode ser dividido da seguinte forma: em primeiro lugar, os dois caminhos (1-6): código de moralidade cristã, apresentando as diferentes virtudes e vícios que constituem, respectivamente, o caminho da vida e o caminho da morte. Em segundo lugar, uma espécie de diretrizes gerais para a vida da igreja (7-16): que nada mais são do que regras que visam orientar a igreja em questões como, batismo, jejum, eucaristia, missionários itinerantes, ministros locais entre outras coisas mais. Maxwell Staniforth ressalta a importância dessa secção da Didaquê: “São esses antigos regulamentos que conferem a Didaquê um interesse e importância singulares, pois refletem a vida de uma primitiva comunidade cristã na Síria (ou no Egito) no final do primeiro século”.[27]

III. AS DIRETRIZES DA DIDAQUÊ PARA A CORRETA RELAÇÃO ENTRE OS PREGADORES E A IGREJA.

3.1. OS DEVERES DOS PREGADORES

3.1.1. OS PREGADORES DEVEM SER ORTODOXOS (11:1-3).
Se alguém vier até vocês ensinando tudo o que foi dito antes, deve ser acolhido. Mas se aquele que ensina for perverso e expuser outra doutrina para destruir, não lhe dêem atenção. Contudo, se ele ensina para estabelecer a justiça e o conhecimento do Senhor, vocês devem acolhê-lo como se fosse o Senhor.[28]

Algumas coisas ficam evidentes nesta recomendação feita pela Didaquê. Em primeiro lugar, o critério principal para a acolhida de um pregador numa igreja local deveria ser sua ortodoxia. Antes de se preocupar com a forma da pregação os cristãos dos dias pós-apostólicos deveriam se preocupar com o conteúdo do que era dito. Isto porque a igreja já naqueles dias era assolada pelo trabalho de falsos mestres. Em segundo lugar, fica evidente o caráter deletério das falsas doutrinas. A igreja não deve dar atenção aos falsos mestres porque estes destróem a igreja na medida em que proclamam o erro. Em terceiro lugar, o conteúdo pricipal dessa mensagem haveria de ser a justiça e o conhecimento do Senhor.
A preocupação supra da Didaquê é encontrada em Inácio de Antioquia na sua carta aos Efésios, que em termos bastante enérgicos, faz um alerta à igreja quanto ao trabalho dos falsos mestres:
De fato, existem algumas pessoas que dolosamente costumam levar o Nome, mas agem de modo diferente e indigno de Deus; é preciso que eviteis essas pessoas como se fossem feras selvagens. Com efeito, são cães raivosos que mordem sorrateiramente. Atentos a eles, pois suas mordidas são difíceis de curar.
[29]

E ele elogia os Efésios por não terem dado ouvidos a certos falsos pregadores: “Eu soube que por aí passaram alguns, levando mau ensinamento. Vós, porém, não os deixastes semear em vosso meio, tapando os ouvidos para não receber o que eles semeiam”.
[30]
Podemos dizer que esta forma enérgica de falar sobre os perigos da mensagem dos falsos mestres encontramos no Novo Testamento. Para mencionar apenas duas, entre tantas passagens bíblicas, em Judas um alerta claro é feito à igreja:
Pois, certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus, e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.
[31]

Na sua primeira epístola à Timóteo no capítulo quatro versículos um e dois, Paulo chama atenção de Timóteo para uma profecia que tem relação direta com o problema do falso ensino: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensino de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras, e que têm cauterizada a própria consciência...”
[32]
Os reformadores não ficaram atrás na forma de se reportar aos falsos mestres e na maneira igualmente firme de denunciá-los. Calvino além de demonstrar repulsa pela espécie de pregação onde a fluência é grande, mas o conteúdo escasso: “O que se requer não é meramente uma língua volúvel, pois vemos muitos cuja fluência fácil não contém nada que possa edificar”[33], ensinava aos pastores reformados a necessidade desses terem uma dupla voz: “Um pastor precisa de duas vozes, uma para reunir o rebanho e outra para afugentar os lobos e os ladrões”.[34]
Torna-se evidente para qualquer estudioso da história do cristianismo e das Escrituras Sagradas que a igreja sempre foi estimulada pelos seus melhores ministros a nunca manter uma relação condescendente com os falsos mestres. Para tais homens de Deus, era uma negação do amor em nome do mesmo negociar o conteúdo da verdade. Amor que tolera a presença de um falso mestre permite que aconteça algo que para o verdadeiro amor é intolerável que é permitir o ser humano ser privado da verdade. Não encontramos no NovoTestamento, Pais Apostólicos e reformadores a idéia de expor a comunidade cristã ao ensino do falsos mestres na perspectiva de “ouvir todas as coisas e reter o que é bom”. Eles sabiam que a igreja sempre tem pequeninos que não saberão discernir as coisas. E mais, nunca honravam um falso mestre.

3.1.2. OS PREGADORES DEVEM SER DESPROVIDOS DE INTUITOS GANANCIOSOS (11:5-6, 9, 12).
Ele não deverá ficar mais que um dia ou, ser for necessário, mais outro. Se ficar por três dias, é um falso profeta. Ao partir, o apóstolo não deve levar nada, a não ser o pão necessário até o lugar em que for parar. Se pedir dinheiro, é um falso profeta... Todo profeta que sob, inspiração, manda preparar a mesa, não deve comer dela. Caso contrário, trata-se de um falso profeta... Se alguém disser sob inspiração. ‘Dê-me dinheiro’ ou qualquer outra coisa, não o escutem. Contudo, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue”.
[35]

O pregador deve deixar patente para a igreja que seu propósito é servi-la e não usá-la. Esta era uma condição indispensável para o exercício do ministério de pregação na igreja no período dos Pais Apostólicos. Como haverá de se expressar esta pureza de propósito? Ele evitará ser um peso para os membros da igreja. Isto o levará a não se hospedar durante muitos dias na casa dos irmãos na fé, não sair da igreja onde pregou carregando mais do que o necessário, não pedir dinheiro e não profetizar em causa própria.
Fica de modo claro a recomendação dos pregadores fiéis não imitarem em nada os falsos mestres. Sua preocupação deveria levá-los até mesmo a temerem praticar aquilo que poderia de algum modo, dar margem a uma interpretação equivocada da intenção do seu trabalho. Notamos que a recomendação guarda um certo rigor porque provavelmente a igreja já estava enfrentando naqueles dias sérios problemas com os pregadores itinerantes. Muitos usavam de sua suposta autoridade espiritual para explorarem a igreja.
O trabalho pastoral pressupõe amor. O que deve levar uma pessoa a se envolver com o ministério de pregação é sua agonia em ver tantas pessoas sem salvação. O conhecido Pai Apostólico, Policarpo, mostra que não só a Didaquê preocupou-se naqueles com o caráter dos ministros:
Os presbíteros também sejam compassivos, misericordiosos para com todos. Tragam de volta os desgarrados, visitem todos os doentes, não descuidem a viúva, o orfão e o pobre, mas sejam sempre solícitos no bem diante de Deus e dos homens. Abstenham-se de toda cólera, acepção de pessoas, julgamento injusto, mantenham-se distantes do amor ao dinheior, não creiam com muita pressa em qualquer um; não sejam severos no julgamento, sabendo que todos nós somos devedores do pecado”.
[36]

3.1.3. OS PREGADORES DEVEM SER SANTOS (11:8, 10).
Nem todo aquele que fala inspirado é profeta, a não ser que viva como o Senhor. É assim que vocês reconhecerão o falso e o verdadeiro profeta... Todo profeta que ensina a verdade, mas não pratica o que ensina, é um falso profeta.
[37]
A Didaquê apresenta o verdadeiro mensageiro de Deus como um homem que é ortodoxo na doutrina e santo na prática. Antes de tudo ele precisa de ser como o Senhor. A semelhança a Cristo se constituía no grande alvo da vida do mensageiro cristão. A prática da verdade é outra condição básica. O pregador precisa ser a própria apresentação da verdade. Os motivos desta ênfase na santidade são óbvios. Primeiro, porque é isto o que o Novo Testamento exige do ministro. Ao se dirigir ao jovem pregador Timóteo, o apóstolo Paulo avisa que só haveria uma única forma de Timóteo não ser desprezado pelo homens por causa da sua pouca idade. Se ele vivesse uma vida santa: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza”.
[38]
Em segundo lugar, esta ênfase na santidade ocorre pelo motivo de ser impossível ouvir uma pessoa que não vive o que prega. Os ouvidos do ouvinte da mensagem do evangelho tornam-se surdos quando este não pode ver a verdade na vida do pregador.
O terceiro motivo, entre tantos outros que poderíamos mencionar, é o fato de que a verdade quando exemplificada pela vida de quem a proclama verbalmente, costuma vir acompanhada de um poder de convencimento muito maior.
O famoso pregador calvinista Charles Spurgeon via a santidade do ministro como sua maior necessidade:
No ministro, a santidade é ao mesmo tempo a sua principal necessidade e o seu mais excelente ornamento. A simples excelência moral não basta; é preciso haver virtude mais elevada. Tem que haver um caráter consistente, mas este precisa ser ungido com o óleo santo da consagração, ou, do contrário, estará faltando aquilo que nos impregna do melhor aroma para Deus e para os seres humanos.
[39]

O que acabamos deve é aquilo que de modo implícito é apresentado como norma para a vida de um pregador. Esse deve ser fiel à doutrina, desprovido de todo intuito ganancioso e santo. Mas, a Didaquê tem algo a dizer aqueles que param para ouvir os que pregam. Porque falsos profetas podem se imiscuir na vida da igreja, seus membros devem ser criteriosos em sua relação com os pregadores. Como esses, no entanto, são um canal da comunicação da verdade do evangelho a igreja deve tê-los em alta consideração. São três, sendo assim, os principais deveres da igreja para com os pregadores da palavra.

3.2. OS DEVERES DOS MEMBROS DA IGREJA PARA COM OS PREGADORES.

3.2.1. OS PREGADORES VERDADEIROS DEVEM SER ACOLHIDOS PELA IGREJA (11: 1,2,4).
Se alguém vier até vocês ensinando tudo o que foi dito antes, deve ser acolhido... se ele ensina para estabelecer a justiça e o conhecimento do Senhor, vocês devem acolhê-lo como se fosse o Senhor...Todo apóstolo que vem até vocês seja recebido como o Senhor...[40]
A Didaquê ensina a igreja a ter em alta consideração o trabalho dos pregadores. Estes devem ser acolhidos como se fossem o próprio Senhor. Nas citações acima vemos em três versículos a ordem para que os cristãos recebessem os mensageiros como se estes fossem o próprio Senhor. O motivo é muito simples. Um pregador fiel que expõe a verdade apostólica é como se fosse o Senhor Jesus Cristo falando através dele. Isto nada mais é do que um eco do ensino claro do Novo Testamento. Paulo, na Segunda carta aos Coríntios no capítulo cinco versículo vinte expressa a convicção de que Deus fala através do pregador evangélico: “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”.

Tudo isto revela o apreço que havia naqueles dias pela pregação da Palavra de Deus. As pessoas eram estimuladas a perceberem o valor incalculável de se ter no seio da igreja alguém através do qual Cristo fala. Vemos, então, o porque da pregação ser uma instituição cristã. As gerações subsequentes de crentes compreenderam que a igreja é edificada de modo singular pela exposição da verdade. E por isto todo o capítulo treze da Didaquê é dedicado ao sustento amoroso destes que são porta vozes de Deus:
Todo verdadeiro profeta que queira estabelecer-se entre vocês é digno do seu alimento. Da mesma forma, também o verdadeiro mestre é digno do seu alimento, como todo operário. Por isso, tome os primeiros frutos de todos os produtos da vinha e da eira, dos bois e das ovelhas, e os dê para os profetas, pois eles são os sumo sacerdotes de vocês.[41]

A condição para que tratamento honroso fosse dado ao pregador era bastante clara. Este deveria ser fiel. E somente este deveria ser tratado de modo distinto. Sendo assim qual deve ser o conteúdo da sua mensagem? Primeiro, não se exige que ele seja original, mas que fale a verdade. Ele deve tão somente falar “tudo o que já foi dito antes”. Depois a Didaquê estabelece como condição básica que o conteúdo de sua mensagem trate dos aspectos essenciais da verdade: a “justiça”e o “conhecimento do Senhor”. Como diz Richard Baxter:
Assim, as grandes verdades, comumentes reconhecidas, são aquelas pelas quais os homens vivem e são os grandes instrumentos que elevam os seus corações a Deus. São elas que destroem os pecados dos homens. Focalizem, pois, essas verdades centrais, e evitarão pormenores frívolos, enfeites desnecessários e controvérsias sem proveito. Ao invés disso, lembrem-se daquilo que é verdadeiramente necessário. Outra verdades podem ser desejáveis, mas estas precisam ser conhecidas.
[42]

Se houve um momento na história da igreja em que a pregação foi honrada este período foi o do puritanismo tanto inglês quanto norte-americano.Leland Ryken em Santos no Mundo relata um incidente ocorrido próximo ao século dezesseis na Inglaterra. Laurence Chaderton, primeiro mestre do Emmanuel College, Cambridge, está pregando em sua nativa Lancashire. Este condado do norte, diz Ryken, é território católico:
As pessoas não ouvem bons sermões com frequência. Chaderton prega há duas horas. Está para concluir e diz algo no sentido ‘de que não mais infrigiria contra a paciência deles’. Mas a audiência não permite que o pregador pare. ‘Pelo amor de Deus, senhor, continue, continue’, instam eles. ‘No que’, nos dizem, ‘o Sr. Chaderton foi surpreendido a proferir um discurso mais longo, além de sua expectativa, para satisfazer a importunidade deles’.
[43]

No sermão de ordenação de Jonathan Judd, que se tornara ministro de uma nova congregação que se organizara em 1743 em Southampton, Jonathan Edwards faz a seguinte adomoestação:

Existem alguns professantes, em algumas das nossas cidades, que são homens antiministeriais; eles parecem ter uma disposição para sentirem antipatia por homens desta ordem; eles são aptos para ter preconceitos contra eles, supeitarem deles, e falarem contra eles; e parece ser natural para eles não serem amigáveis e bondosos para com seus próprios ministros, e criarem dificuldades para eles. Mas, eu não acredito que haja um verdadeiro cristão na terra que seja deste caráter; pelo contrário... todo que recebe a Cristo, e cujo coração é governado por um supremo amor por ele, tem a disposição de receber, amar e honrar seus mensageiros.
[44]

A conclusão a que chegamos, portanto, é que faz parte da tradição cristã honrar os ministros e ver a pregação fiel como um meio gracioso de Deus transformar o coração humano. A igreja não teria chegado até onde chegou sem o trabalho dessa gente.

3.2.2. OS PREGADORES QUE NÃO TRAZEM A VERDADEIRA DOUTRINA NÃO DEVEM SER ACOLHIDOS PELA IGREJA (11:2).
“Mas se aquele que ensina for perverso e expuser outra doutrina para destruir, não lhe dêem atenção”.
[45]


O respeito que a igreja deveria ter pelos verdadeiros pregadores era proporcional a determinação de não acolher os falsos. Os parâmetros da pregação estabelecidos pelos apóstolos deveriam ser respeitados de uma tal forma que nada fosse subtraído ou acrescentado. O pregador era livre para fazer as aplicações mais diferentes das verdades básicas do cristianismo, mas não para pregar qualquer coisa que não fosse o evangelho.
O principal motivo pelo qual o pregador infiel não deveria ser acolhido era o caráter deletério de sua mensagem. O ensinamento herético destrói a igreja. Portanto, nunca uma congregação cristã no período dos Pais Apostólicos deveria em nome do amor ou da liberdade de pensamento acolher um pregador infiel. Este não deveria ser honrado.
A carta de Inácio aos Efésios documento que faz parte do conjunto de literatura do período dos Pais Apostólicos demonstra o quanto os líderes daquela geração eram refratários a qualquer idéia de dar boas vindas à alguém que não pregasse segundo os oráculos de Deus: “Eu soube que por aí passaram alguns, levando o mau ensinamento. Vós, porém, não os deixaste semear em vosso meio, tapando os ouvidos para não receber o que eles semeiam, porque sois pedras do templo do Pai, preparados para a construção de Deus Pai...”
[46] As igrejas fiéis, deste modo, não deveriam permitir que falsos mestres “semeassem em vosso meio”.
Gresham Machem que como poucos soube defender a igreja dos ataques da insipiente teologia liberal, antevendo os estragos que o cristianismo haveria de sofrer com os ensinos liberais, foi levado a fazer o seguinte alerta:
O presente não é um tempo para tranquilidade ou prazer, mas para seriedade e obra súplice. Uma crise terrível tem surgido, de forma inquestionável, na igreja. No ministério das igreja evangélicas são encontradas multidões daqueles que rejeitam o evangelho de Cristo. Pelo uso duvidoso de frase tradicionais, pela representação de diferenças de opinião como se fossem apenas diferenças sobre interpretação da Bíblia, a entrada na igreja foi assegurada àqueles que são hostis com relação às próprias bases da fé.
[47]


3.2.3. OS PREGADORES DEVEM SER TRATADOS PELA IGREJA DE FORMA CRITERIOSA (11:5-6, 8-12).
Ele não deverá ficar mais que um dia ou, se for necessário, mais outro. Se ficar por três dias, é um falso profeta. Ao partir, o apóstolo não deve levar nada, a não ser o pão necessário até o lugar em que for parar. Se pedir dinheiro, é um falso profeta. Nem todo aquele que fala inspirado é profeta, a não ser que viva como o Senhor. É assim que vocês reconhecerão o falso e o verdadeiro profeta. Todo profeta que, sob inspiração, manda preparar a mesa, não deve comer dela. Caso contrário, trata-se de um falso profeta. Todo profeta que ensina a verdade, mas não pratica o que ensina, é um falso profeta. Todo profeta comprovado e verdadeiro, que age pelo ministério da Igreja, mas não ensina a fazer como ele faz, não será julgado por vocês. Ele será julgado por Deus. Assim também fizeram os antigos profetas. Se alguém disser sob inspiração. ‘Dê-me dinheiro’ ou qualquer outra coisa, não o escutem. Contudo, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue.
[48]

A igreja do período dos Pais Apostólicos teve que enfrentar sérios problemas com falsos mestres e falsos profetas. À luz de quase todos os documentos dessa época isto é muito evidente. E qualquer estudo sobre história da igreja comprova o fato de que os maiores prejuízos que a igreja sofreu ao longo dos séculos não foram ocasionados por inimigos de fora, mas inimigos de dentro.
A atualidade da Didaquê pode ser provada pelos versos mencionados acima. Observa-se com clareza que a igreja não apenas enfrentava problemas com pessoas que ensinavam o oposto da mensagem dos apóstolos. Os cristãos daquela geração tiveram que saber o que fazer com os falsos profetas itinerantes que de cidade em cidade falavam sob inspiração supostamente divina. Este profetizavam em favor de si próprios. Ora, dizendo sob falsa inspiração que Deus ordenava que a igreja lhes oferecesse provisão material, e, ora, procurando benefício indireto na forma da apresentação de profecias que nada mais eram do que a comunicação de mensagens que todo mundo queria ouvir. Por isto regras claras foram apresentadas pelas lideranças cristãs a fim de que a vida destes falsos profetas se tornasse inviável.
As principais diretrizes eram as seguintes: primeiro, estimulava-se a igreja a não ter como profeta alguém que permanecesse mais de três dias na casa de um irmão na fé. Isto caracterizaria seu intuito ganancioso. Em segundo lugar, este não deveria partir da cidade com mais do que o necessário para a sua próxima viagem. Sua viagem evangelística não deveria conferir-lhe lucro. Em terceiro lugar, não se admitia que alguém que afirmava-se crer no ministério profético, fosse incapaz de crer que Deus poderia suprir suas necessidades financeiras de modo sobrenatural. Este nunca deveria pedir dinheiro à igreja. Caso o fizesse a igreja deveria considerá-lo falso profeta.
Em quarto lugar, a igreja não deveria atentar apenas para o seu modo “inspirado” de falar, mas para sua conduta. Este homem deveria viver como o Senhor. Praticar o que ensinava.
Em quinto lugar, suas profecias nunca deveriam beneficiar-lhe. Se ele mediante profecia dizia que uma mesa deveria ser posta, era obrigado a dela não se alimentar. Ou seja, a igreja não acreditava que Deus supriria as necessidades do profeta usando as profecias do mesmo.
Outro documento muito importante para o conhecimento da vida das igrejas dos primeiros séculos é o Pastor de Hermas. A semelhança com o que acontece nos dias de hoje é evidente. Ele fala de pessoas vacilantes que procuravam os falsos profetas a fim de saberem o que lhes haveria de acontecer:
Ele me mostrou homens sentados num banco e outro homem sentado numa poltrona. E me disse: ‘Vês as pessoas sentadas no banco?’ Eu respondi: ‘Sim Senhor’. Ele explicou: ‘Esses são fiéis, e o que está assentado na poltrona é falso profeta, que corrompe a inteligência dos servos de Deus, isto é, corrompe a inteligência ods que duvidam, e não dos fiéis. Aqueles que duvidam vão até ele como adivinho e lhe perguntam o que lhes acontecerá. Então esse falso profeta, sem ter em si nenhum poder do espírito divino, responde-lhes segundo o que perguntam e segundo seus maus desejos, satisfazendo-lhes a alma com o que desejam. Sendo vazio ele próprio, dá respostas vãs a homens vãos. Seja qual for a pergunta, ele responde conforme a vaidade do interrogador. Também diz coisas verdadeiras, pois o diabo o enche com o seu espírito, a fim de dobrar algum justo.
[49]

Percebemos que a história da igreja nos mostra que dificilmente encontramos nas igreja de hoje, problemas que não foram enfrentados pelas igrejas do passado. Crentes naqueles dias procuravam os falsos profetas tal como os pagãos procuravam os adivinhos: “...os vacilantes e que mudam constantemente de opinião, consultam os adivinhos como os pagãos, e carregam-se de pecados maior que os idólatras”.
[50]
É interesante observar que as profecias não eram de todo combatidas. Acreditava-se que Deus poderia usar um homem dessa forma incomum. Capacitando-o a expor o pensamento de Deus ao povo:
Quando um homem, que tem o espírito de Deus, entra numa assembléia de homens justos, crentes nos espírito divino, e nessa assembléia de homens justos se suplica a Deus, então o anjo do espírito profético que está junto dele, plenifica esse homem, e ele, pleno do Espírito Santo, fala à multidão conforme quer o Senhor.
[51]

Esse fenômeno é encontrado no período posterior aos Pais Apostólicos. Agostinho acreditava que sua mãe Mônica era usada por Deus desse modo sobrenatural:
Minha mãe forte na piedade, já viera ao meu encontro, seguindo-me por terra e por mar, em ti confiando em todos os perigos. Era ela, nos momentos críticos da navegação, quem incutia coragem aos próprios marinheiros, que habitualmente confortam os viajantes inexperientes e timoratos, prometendo-lhes uma chegada a salvo. Foste tu, em visão, quem o havias prometido a ela.
[52]

Martyn Lloyd-Jones revela não apenas crer que este tipo de fenômeno pode acontecer nos dias de hoje como também apresenta fatos históricos que o comprovam:
Há evidência, de muitos Reformadores Protestantes e Pais, que alguns deles tiveram um genuíno e verdadeiro dom de profecia, eu quero dizer por isto predizer eventos. E você acha entre os Pactuários Escoceses pessoas como Alexander Peden e outros que deram acurada, e literal profecia de coisas que subsequentemente vieram a acontecer”. E ele conclui dizendo: “Nosso perigo é apagar o Espírito e colocar limite para o poder de Deus, o Espírito Santo.
[53]

Os abusos, no entanto, eram tamanhos que no Pastor de Hermas encontramos orientações seguras quanto a forma da igreja lidar com este tipo de manifestação espiritual: Quem tem o espírito que vem do alto, é calmo, sereno e humilde... O Espírito Santo não fala quando o homem quer, mas só quando Deus quer que ele fale”.
[54] Era inconcebível que este homem se comportasse de uma determinada maneira. A forma própria de um espírito terreno trabalhar: “... tal homem, que julga possuir o espírito, exalta-se a si mesmo, quer ter o primeiro lugar, e logo se apresenta descaradamente, imprudente e loquaz. Vive em meio a muitas delícias e muitos prazeres, e aceita pagamento por profecia”.[55]

IV. OS BENEFÍCIOS QUE A IGREJA MODERNA PODE AUFERIR DO PONTO DE VISTA DA DIDAQUÊ SOBRE O MINISTÉRIO DA PREGAÇÃO.
A leitura da Didaquê mostra porque ela não entrou no Cânon do Novo Testamento. Falta-lhe uma série de atributos que encontramos nos vinte e sete livros neo-testamentários que a igreja reconheceu como inspirados. A análise da literatura dos Pais Apostólicos mostra-nos como Deus pela sua providência protegeu a igreja de incluir no Cânon livros que haveriam de infelicitar a vida de tantos crentes. Longe, portanto, de considerar a Didaquê inspirada.
Penso, no entanto, que devido à sua antiguidade, respeito de que gozou em seu tempo, riqueza histórica e atualidade de seus temas, que deva ser estudada por nós com bastante cuidado. Seus conselhos com respeito à relação da igreja com os pregadores, podem até parecer exagerados, mas revelam grande perspicácia espiritual e fidelidade ao Novo Testamento. Sua aplicabilidade é grande à realidade que nos cerca. Que lições daquele tempo podemos aplicar à vida de nossas igreja hoje?
A primeira lição, é que o adversário de nossas almas sempre tratou de desacreditar o ministério de pregação. As derrotas que o inferno tem experimentado por causa da pregação fiel e ungida são tamanhas, que o Diabo trabalha duro para que a pregação caia em descrédito. Hoje, em nosso país, o ministério pastoral tem caído em descrédito de inúmeras formas. Uma delas é o número grande de pastores mal preparados, que por pura falta de capacidade intelectual não conseguem expor a verdade. Quem os ouve torna-se muitas vezes cansado de sentar-se para ouvir qualquer outro. Não é tarefa fácil durante uma hora ouvir alguém que não diz coisa alguma. Poucos dão este direito a outra pessoa, a não ser ao ministro. E este não aproveita tão grande privilégio e oportunidade de fazer o bem por não conhecer nem mesmo o que prega.
Não pode acontecer de uma pessoa levar sete anos numa faculade de medicina, entre presença em sala de aula e residência, a fim de poder clinicar bem, e um homem em seis meses se sentir em condições de pastorear, falando sobre questões de vida ou morte em nome de Deus para almas sequiosas da verdade.
Há daqueles que fizeram o ministério de pregação cair em descrédito não pela escassez de conteúdo em suas mensagens, mas por simplesmente se comportarem como ímpios. Uns são carnais mesmo, cometendo os mais vis pecados. Outros são tão descuidados com a forma de falar e se comportar que destróem com a vida o que procuram construir no púlpito. Uma hora falando esplendidamente para no minuto seguinte, na mesa de jantar destruir tudo o que procurou contruir. Assim trabalha o adversário da causa de Cristo, enviando para o púlpito seus servos, ou levando a igreja permitir que preguem homens que deveriam estar sentados ouvindo por serem desprovidos de envergadura espiritual. Que benefícios seriam auferidos pelos nossos crentes se o púlpito fosse vetado para muitos que anseiam por ocupá-lo.
Em segundo lugar, aprendemos que a igreja não pode ser tolerante com os falsos mestres. Não teríamos chegado aqui se as recomendações da Didaquê, por exemplo, não fossem feitas com tamanho rigor. Há crentes e seminaristas que honram mais os que negam os fundamentos da fé do que os leais servos de Deus. Aqueles são tidos como inteligentes, abertos ao saber, não dogmáticos e assim por diante. Enquanto esses são os de mente estreita, obtusos e que não se abrem para o novo. Pode até ser o caso de um professor liberal, por exemplo, ser o mais inteligente do seminário teológico. O que tem mais cultura geral e se comunica melhor. Mas, se ele não fala de acordo com as Escrituras Sagradas não deve ser ouvido e honrado. Fora o absurdo de deixá-lo ocupar espaço num lugar onde nunca poderia estar.
Pai Apostólico nenhum permitiria, à luz de tudo o que vimos, que um herege confesso tivesse espaço numa instituição cristã de ensino à título dos alunos aprenderam um pouco sobre o “outro lado da história”. A igreja nunca precisou desse tipo de coisa. O erro está em toda parte por todo canto. E nada mais fácil do que crentes fracos perderem a alma através do contato com este tipo de gente. Isto a história recente dos seminários do mundo inteiro tem ensinado. É uma deslealdade para com o povo de Deus, igrejas confessionais pagarem para homens que não subscrevem sua confissão de fé ensinarem. Enquanto estas instituições de ensino são mantidas com o dinheiro daqueles, homens cujos ensinamentos são abominação para quem os alimenta, permanecem ocupando posições centrais em locais de formação de futuros ministros. Homens que se dizem crentes e não crêem na inspiração plenária e verbal da Bíblia não deveriam ter seus livros divulgados ou ser convidados para dar palestras em comunidades cristãs.
Está historicamente comprovado que por onde o liberalismo teológico passou a temperatura espiritual das igrejas decaiu. Como diante de tanta evidência histórica podemos permitir que esta gente seja recebida na igreja de Cristo? Pessoas que invariavelmente tem problemas sérios de caráter. Como não? Se elas fossem honestas redigiriam sua própria confissão de fé, negando a Bíblia, a morte substitutiva da Cristo, a necessidade de arrependimento e fé para a salvação, entre outras doutrinas mais. O que não fazem publicamente porque sabem que vão passar fome.
Em terceiro lugar, a igreja deve estar atenta ao exercício indiscriminado da profecia. Através da literatura dos Pais Apostólicos percebemos que a igreja desde os tempos mais antigos tem enfrentado problema com o dom de profecia. Não encontramos em nenhum escrito da época orientação para se negar a possibilidade de Deus falar deste modo incomum. Não há nenhuma recomendação no Novo Testamento e na literatura dos Pais Apostólicos para este tipo de coisa. E é impossível mediante uma base histórica também negarmos a continuidade desse tipo de manifestação espiritual. Martyn Lloyd-Jones talves tenha sido o pregador calvinista que mais teve coragem de publicamente admitir a possibilidade dessa obra do Espírito Santo:
Não somente isso, mas muitas vezes também é dado um dom de profecia. Refiro-me literalmente a uma capacidade de predizer o futuro. Precisamos enfrentar estas coisas porque parece-me que estamos em grave perigo, com todo o nosso conhecimento e sabedoria, de apagarmos o Espírito. Estou colocando fatos diante de vocês. Este fenômeno de profecia, esta capacidade de predizer o futuro, faz-se presente com muita frequencia. Assume muitas formas. Conheci um homem cujo pastor recebeu este Dom no avivamento de 1904 e 1905. Desapareceu completamente mais tarde, mas enquanto o avivamento durou, ele recebeu de antemão a revelação de algo que iria acontecer em sua igreja, e não só um vez, mas manhã após manhã. Ele era despertado de um sono profundo às duas e meia da madrugada, e recebia informação direta e exata de algo que iria acontecer durante aquele dia, e acontecia. Essa é outra parte deste fenômeno mental”.
[56]

Sendo assim, por maiores que sejam os perigos que advém do exercício da profecia (falo daquela que é chamada na Didaquê de inspirada, embora eu mesmo não use esta terminologia, deixando-a para às Escrituras Sagradas), não devemos nos fechar para a soberania do Espírito Santo nesta área e para os benefícios que podem se auferidos por meio dessa manifestação do Espírito.
Parece, pelo que podemos ver, que provavelmente esta manifestação espiritual foi se tornando escassa na igreja com o passar dos anos por causa dos seus erros e exageros. Há quem afirme que o movimento montanista com todo os seus abusos no uso da profecia tenha sido uma das principais causas da igreja haver deixado esta obra espiritual de lado. E isto não podemos negar. A forma indiscriminada de se relacionar com a profecia tem trazido muito confusão à igreja no decorrer dos séculos. Exemplos notáveis além do supra mencionado, é o dos Quakers e o do movimento Anabatista, que com todo seu subjetivismo e ênfase na chamada “luz interior”, afastaram muitos crentes da principal forma do Espírito Santo falar ao homem, que é pela Palavra que ele próprio inspirou.
Hoje em nosso país é tamanho o abuso do dom de profecia que com relutância afirmamos a possibilidade de tal manifestação ocorrer. Pessoas que não conhecem a Escritura por preguiça e indiferença espiritual, vivem em busca desta manifestação espiritual a fim de terem seus problemas resolvidos. Outros pecam por julgarem que sempre este dom tem que se manifestar, o que é igualmente negado pela história eclesiástica, mesmo nos melhores tempos da vida da igreja. Martyn Lloyd-Jones parece discordar dos restauracionistas ao declarar: “Nós não devemos dizer ‘apenas para o Novo Testamento’, nem dizer ‘sempre’. A resposta é, ‘como lhe apraz’, como o Espírito deseja”.
[57]
A pergunta que deveríamos responder em face dos erros cometidos pela igreja em sua relação com os falsos profetas é a seguinte: que recomendações da Didaquê poderiamos aplicar a fim de que o povo de Deus fosse protegido da ação desses, que desde o tempo da Didaquê falando de uma forma supostamente inspirada, exigem que a igreja dê crédito às suas palavras? Há muita ingenuidade no contato com essa gente. E enquanto esses que vivem por meio dessas falsas profecias, vão determinando o curso da vida de homens e mulheres, fazendo avaliações intuitivas do estado espiritual das pessoas, pregando o que os outros querem ouvir e livremente usando em vão o nome de Deus.
Mas, gostaria de concluir, contudo, de um modo positivo. Conforme vimos, a Didaquê não tem interesse em apenas mostrar os perigos que envolvem o contato indiscriminado com mestres, pregadores e profetas. Seu propósito é o de dar ênfase a dignidade do ministério de pregação. Um pregador fiel deve ser ouvido, honrado e tido em alta estima pela igreja. Pode ser que não seja um grande orador, ou empreendedor, ou alguém com aura de profeta, mas se esse homem é um expositor fiel da Biblia a igreja deveria amá-lo por tudo aquilo que de bom representa para ela.
Mediante o ministério de pregadores fiéis, Cristo governa sua igreja por meio da sua palavra, pecadores são acrescidos à congregação dos justos e a família da fé é nutrida. Feliz a igreja que pode semana após semana conhecer a mente de Deus através da exposição bíblica feita por um pregador santo. Aqui nós temos uma base mais segura para afirmarmos que Deus está falando por meio da boca de uma homem. Não pode na nossa nação de ocorrer que supostos profetas, manipulando consciências através de um modo “inspirado” de falar granjeiem mais atenção e respeito do que pregadores que por temerem a Deus não ousam falar nada que não esteja claramente revelado em sua palavra e que por temor falam das suas impressões espirituais como impressões e não profecias.
Carecemos de regatar a dignidade do púlpito. A igreja não passa dele. Com dificuldade a igreja terá maturidade espiritual maior do que seus ministros. Por isso os pregadores devem se esmerar para, conforme exemplo da Didaquê, serem santos, fiéis à verdade e pregarem o que é essencial. E os crentes que detectam tais virtudes na vida dos seus pastores, levados a amá-los, ouvi-los e criarem condições para que eles cumpram fielmente sua vocação.

V. CONCLUSÃO.
Acabamos de fazer uma análise de um dos aspectos da vida da igreja em seus primórdios. Descobrimos que embora estajamos há dois mil anos de distância dos Pais Apostólicos, temos muito o que aprender com seus problemas e as soluções que encontraram para os mesmos. Quase sempre, eu sei, esse tipo de coisa é falada em livros de história. Mas, que bem faria para a igreja de hoje se vissemos as lutas daquela geração de crentes como batalhas que frequentemente se repetem na vida da igreja e as soluções que encontraram para seus conflitos como uma possível sabedoria dada pelo Espírito Santo a fim de que algo te tão precioso fosse preservado na igreja, a fiel pregação da Palavra de Deus.
A Didaquê consegue nos mostrar uma caminho onde a igreja deixa de ser ingênua no contato com os pregadores e ao mesmo tempo não deixa de auferir os benefícios que pode receber do ministério deles. Os crentes são estimilados a fecharem as portas para os falsos mestres e profetas e acolherem com grande honra os verdadeiros mensageiros de Deus. Ficamos coma impressão, sendo assim, que se a Didaquê fosse ouvida muitos dos problemas que a igreja tem enfrentado nos últimos anos não enfrentaria.
Se a Didaquê tivesse sido ouvida por gerações passadas de crentes, hereges não receberiam a honra que receberam, falsos profetas por melhor que representassem seu papel de homens inspirados seriam calados e os verdadeiros ministros vistos como uma grande expressão da bondade de Deus pela sua igreja.

BIBLIOGRAFIA

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[8] Ibidem, p. 20
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[18] Ibidem, p. 40
[19] GONZÁLES, Justo. Historia del pensamiento cristiano. Colombia, 2002. Editorial Caribe. P . 68.
[20] Ibidem, p.68.
[21] FRANGIOTTI, Roque (ed.). Padres apostólicos. Coleção Patrística, Vol. I. São Paulo: Paulus, 1995.p 336-337.
[22] GONZÁLES, Justo. Historia del pensamiento cristiano. Colombia, 2002. Editorial Caribe. P . 68.
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[24] CESARÉIA, Eusébio. História eclesiástica. São Paulo, 2002. Novo Século. P. 99
[25] GONZÁLES, Justo. Historia del pensamiento cristiano. Colombia, 2002. Editorial Caribe. P . 67.
[26] QUASTEN, Johannes. Patrology. Vol. I. Westminster, 1993. Christian Classics. P. 30.
[27] STANIFORTH, Maxwell. Early christian wrintings: the apostolic fathers. New York, 1993. Barnes & Noble. P. 226.
[28] FRANGIOTTI, Roque (ed.). Padres apostólicos. Coleção Patrística, Vol. I. São Paulo: Paulus, 1995.p 334-335.
[29] Ibidem, p.84
[30] ibidem, p.84
[31] Jd 4
[32] I Tm 4: 1-2
[33] GEORGE, Timothy. Teologia dos reformadores. São Paulo, 2000. Edições Vida Nova. P. 241.
[34] Ibidem, p. 242
[35] FRANGIOTTI, Roque (ed.). Padres apostólicos. Coleção Patrística, Vol. I. São Paulo: Paulus, 1995.p 355-356.
[36] Ibidem, p. 142-143.
[37] Ibidem, p. 355-356.
[38] I Tm 4: 12
[39] SPURGEON, Charles. Licões aos meus alunos. São Paulo, 1982. PES. P. 17.
[40] FRANGIOTTI, Roque (ed.). Padres apostólicos. Coleção Patrística, Vol. I. São Paulo: Paulus, 1995.p 354-355.
[41] Ibidem, p. 357
[42] BAXTER, Richard. O pastor aprovado. São Paulo, 1989. PES. P. 38.
[43] RYKEN, Leland. Santos no mundo. São José dos Campos, 1992. Editora Fiel. P. 103
[44] MURRAY, Iain. Jonathan Edwards a new biography. Carlisle, 1992. Banner of Truth. P. 280
[45] FRANGIOTTI, Roque (ed.). Padres apostólicos. Coleção Patrística, Vol. I. São Paulo: Paulus, 1995.p 355.
[46] Ibidem, p.84-85.
[47] MACHEN, J. Gresham. Cristianismo e liberalismo. São Paulo, 2001. Editora Os Puritanos. P. 172
[48] ibidem, p. 355-356.
[49] FRANGIOTTI, Roque (ed.). Padres apostólicos. Coleção Patrística, Vol. I. São Paulo: Paulus, 1995.p 209.
[50] Ibidem, p. 209
[51] ibidem, p. 210
[52] AGOSTINHO. Confissões. São Paulo, 1986. Edições Paulinas. P. 131.
[53] LLOYD-JONES, Martyn. Prove All Things. Eastbourne, 1985. Kingsway Publications. P. 45
[54] FRANGIOTTI, Roque (ed.). Padres apostólicos. Coleção Patrística, Vol. I. São Paulo: Paulus, 1995. P. 210.
[55] Ibidem, p. 210.
[56] LLOYD-JONES, Martyn. Avivamento. São Paulo, 1992. Editora Pes. P. 140.
[57] LLOYD-JONES. Prove All Things. Eastbourne, 1985. Kingsway Publications. P. 48

O ÚNICO LUGAR DE REPOUSO DA ALMA:UMA ANÁLISE DO PENSAMENTO DE AGOSTINHO SOBRE A DEPENDÊNCIA HUMANA DE DEUS


INTRODUÇÃO
É fato fora de controvérsia que a declaração mais citada de Agostinho é a que se encontra nas primeiras linhas da sua mais famosa obra, Confissões: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”. Esta frase se constitui na porta de entrada para toda a antropologia do grande bispo de Hipona.
Fica claro que suas Confissões vem a ser o desdobramento desta declaração vital. Em diversas passagens Agostinho desenvolve as três idéias básicas que subjazem a este conceito sobre o ser humano. Que idéias são estas? A primeira é que o homem foi feito para o seu Criador. Este é o grande propósito para o qual o homem foi criado. Para Agostinho a essência precede a existência. Pensando de um modo bastante diverso da antropologia existencialista Agostinho cria que o homem nasce definido. O pensamento existencialista afirma que o homem nasce primeiro e depois sai em busca da sua definição. E neste sentido é livre para definir-se a si mesmo. Como diz Sartre: “Antes de tudo, o homem existe, chega, aparece na cena, e, apenas depois, define-se a si mesmo”.
[1] Ele pode definir-se, por exemplo, como um ser que nasceu em um mundo sem propósito, não havendo base tanto para a construção de um senso de dignidade humana como para a ética. Para Agostinho o homem pode até ser livre para tentar viver de um modo contrário à sua vocação básica, mas o que ele não pode é deixar de ser o que é: um ser chamado para olhar para o alto. Criado com uma profunda necessidade de amar e se sentir amado por aquele que o criou.
A segunda idéia básica que encontramos na conhecida afirmação introdutória que trata do relato de sua conversão é a de que o homem sem Deus é um ser em estado de perpétuo desassossego. Longe do seu criador, recusando-se a cumprir o alvo da sua existência o ser humano torna-se fadado a viver num universo que por si só não o satisfaz. A alma torna-se insaciável. Isto, para o conhecido pai da igreja resulta numa série de desdobramentos psicológicos, morais e espirituais bastante trágicos para a alma humana.
Em terceiro lugar, encontramos uma nota de esperança. O coração do homem pode repousar em Deus. Notamos em Agostinho uma alma atormentada que aprendeu a se aquietar em Deus. Ciente das demandas mais profundas do coração e da beleza indescritível de Deus o homem é um ser que pode aprender a fixar seus afetos naquele que se constitui no propósito da sua criação.
O que gostaria nesta obra é de apresentar estas três idéias básicas sobre a alma humana no pensamento de Agostinho à luz das suas Confissões e dos desdobramentos das mesmas na história da espiritualidade cristã. É fato que esta obra tem exercido grande influência na vida de milhares de cristãos ao longo dos séculos. Com razão afirma Herbert Jacobsen: “Embora escrito a aproximadamente 1600 atrás (Confissões), ainda permanece como uma das mais amplamente lidas obras religiosas no mundo ocidental...A cultura e teologia ocidental devem muito a esta biografia singular”.
[2] O reconhecimento entre cristãos de todos os matizes espirituais de que estamos diante de uma obra de fato singular é bastante amplo: “A obra, em seu conjunto, é uma das maiores obras-primas da literatura universal; revela a preeminente mestria de Agostinho ao descrever movimentos e estados da alma”.[3]
A razão de ser deste tema central na presente obra reside no fato de que o mundo ocidental caminha para uma dura experiência. Nunca houve sociedade mais opulenta do que a nossa. Os avanços tecnológicos e científicos dos últimos anos têm remetido seus cidadãos para uma espécie de vida nunca antes experimentada e até mesmo sonhada. Contudo, precisamos de responder à uma pergunta: quem é mais infeliz, aquele que passou a vida inteira a desejar coisas que nunca pôde obter, ou aquele que embora tenha podido colocar as mãos no que sempre sonhou provou ao mesmo tempo de um grande vazio no coração? Para Agostinho, esta experiência de provar fel nos prazeres da vida é uma grande expressão da bondade divina. É bom para o homem perceber de uma forma ou de outra que este mundo por si só não o satisfaz. Fazer o correto diagnóstico, porém, sem mostrar onde encontrar a solução do problema é trágico. Atestar a infinita sede da alma sem apontar para a fonte inesgotável onde esta mesma sede pode ser saciada conduz ao desespero.
Proponho-me, sendo assim, a apresentar um breve relato biográfico de Agostinho, uma análise nas Confissões da sua declaração central, o impacto do contéudo desta na história da espiritualidade cristã subsequente e por fim uma aplicação para a vida do homem moderno.

VIDA E OBRA DE AGOSTINHO DE HIPONA

Agostinho nasceu na África do Norte na cidade de Tagaste (atual Argélia) no ano de 354. Sua mãe Mônica era uma cristã fervorosa enquanto seu pai de nome Patrício era um pagão que veio a se converter ao cristianismo apenas no final da vida.
Agostinho começou seus estudos na cidade onde nasceu indo mais tarde para a cidade vizinha de Madaura, e com a idade de dezessete anos dirigiu-se para Cartago onde se dedicou ao estudo da retórica. Foi nesta cidade que Agostinho leu Hortencio de Cícero, obra que o fez distanciar-se da retórica pura e superficial e dedicar-se à busca da verdade. Nesta busca Agostinho veio a envolver-se com o Maniqueísmo, que tratava-se de uma doutrina que seguia o antigo caminho gnóstico de procurar oferecer resposta a trágica condição humana mediante uma revelação que o faz conhecer sua origem divina e o livra das amarras da matéria. O maniqueísmo era profundamente dualista. Luz e trevas eram vistas como princípios eternos e antagônicos. Agostinho permaneceu durante nove anos no maniqueísmo. Até que após ir em busca de respostas racionais que ainda o atormentavam num encontro com o famoso líder maniqueu, Fausto de Mileva, Agostinho decepcionado com as soluções apresentadas para seus impasses intelectuais abandona o maniqueísmo. Isto o leva para o ceticismo da Academia.
Em Milão, na sua sede da verdade, Agostinho tem contato com o neoplatonismo. Diz Justo Gonzales:
As obras dos que ele chama platônicos, provavelmente Plotino, Porfírio e outros neoplatônicos, não apenas tiraram Agostinho do ceticismo em que havia caído, senão que o ajudaram a resolver duas das grandes dificuldades que o impediam de aceitar a fé cristã: o caráter incorpóreo de Deus e a existência do mal.[4]

Desde a sua infância Agostinho recebeu instrução cristã através da sua mãe. Nas suas Confissões Agostinho revela a grande influência espiritual que recebeu dela e do quanto ela ansiou pela sua conversão. Angustiada com a demora de seu amado filho converter-se a fé cristã, Mônica é consolada por um bispo que lhe diz a seguinte coisa, tomada pela mesma como revelação divina: “Vá e viva em paz, pois é impossível que possa perecer um filho de tantas lágrimas”, e Agostinho prossegue dizendo: “Muitas vezes ela recordava, mais tarde, em suas conversas comigo, que recebera essas palavras como vindas do céu”.
[5] Antes dos seus dezoito anos tomou uma concunbina com quem teve um filho de nome Adeodato que significa “dado por Deus”.
Apesar do parcial exame da fé cristã feito desde a sua juventude, Agostinho sentiu-se por ela repelido. Três foram os motivos que o impediram de abraçar a fé cristã mais cedo. Os problemas intectuais para os quais não encontrava resposta no cristianismo, o conteúdo do Antigo testamento e o estilo de vida hedonista que procurava viver, em especial no que relacionava-se ao seu amor pelas mulheres. Kenneth Scott Latourette menciona o fato de que o estilo literário da tradução latina das Escrituras Sagradas com toda sua crueza foi um obstáculo para a conversão de Agostinho, já que este era o único meio de que dispunha para conhecer as Escrituras.
[6]
Em busca de trabalho foi para a cidade de Milão onde havia uma vaga para trabalhar como mestre de retórica. Sua ida para esta cidade foi decisiva. Em Milão Agostinho conheceu o neoplatonismo e o grande bispo da cidade, Ambrósio, que juntamente com seu companheiro Simpliciano foram fundamentais para a conversão de Agostinho. Realmente ele foi muito influenciado pelo Bispo Ambrósio. A princípio Agostinho se aproximou do bispo de Milão pelo interesse pela retórica. Ambrósio era um grande pregador. Mais tarde, porém, começou a prestar atenção não para a forma como Ambrósio falava, mas para o que ele falava. Suas dúvidas começaram a ser disspadas e uma forte convicção de pecado se apoderou do seu coração. Sua oração era: “Dá-me a castidade e a continência, mas que não seja para já”.[7] Sua alma estava em guerra.
Chegou o dia, porém, em que finalmente sua busca pela verdade resultou num encontro com a mesma. E nada melhor do que deixarmos Agostinho falar sobre como a luz divina finalmente raiou em seu coração:
Sentia-me ainda preso ao passado, e por isso gritava desesperadamente: ‘por quanto tempo, por quanto tempo direi ainda: amanhã, amanhã? Por que não agora? por que não por fim agora à minha indignidade?’ Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor de coração. Eis que, de repente, ouço uma voz vinda da casa vizinha. Parecia de um menino ou menina repetindo continuamente uma canção: ‘Toma e lê, toma e lê’. Mudei de semblante e comecei com a máxima atenção a observar que se tratava de alguma cantilena que as crianças gostam de repetir em seus jogos. Não me lembrava, porém, de tê-la ouvido antes. Reprimi o pranto e levantei-me. A única interpretação possível para mim, era a de uma ordem divina para abrir o livro e ler as primeiras palavras que encontra-se. Tinha ouvido que Antão, assistindo por acaso a uma leitura evangélica, sentiu um chamado, como se a passagem fosse lida especialmente para ele: Vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me. E logo, através dessa mensagem, converteu-se a ti. Apressado, voltei ao lugar onde Alípio ficara assentado, pois, ao levantar-me, havia deixado aí o livro do apóstolo. Peguei-o, abri e li em silêncio o primeiro capútulo sobre o qual caiu o meu olhar: ‘Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne’. Não quis ler mais, nem era necessário. Mal terminara a leitura dessa frase, dissiparam-se em mim todas as trevas da dúvida, como se penetra-se em meu coração uma luz de certeza”
[8]

Era o ano de 386 e a vinte e cinco de Abril de 387 Agostinho juntamente com seu filho Adeodato veio a ser batizado pelo bispo Ambrósio.
Falando resumidamente, tendo regressado para a Africa onde veio a se tornar bispo da cidade de Hipona, Agostinho tornou-se um escritor que veio a exercer influência pouco igualada na história do pensamento cristão subsequente. Para Latourette:
Nenhum cristão depois de Paulo haveria de exercer uma influência tào ampla, tao profunda e tão prolongada, sobre o cristianismo da Europa Ocidental, assim como aquelas formas de fé que nasceram dele, como a que teve Agostinho.
[9]

Opinião não menos exaltada nos é apresentada pelo famoso historiador Justo Gonzales:
Agostinho é tanto o fim de uma era como o começo de outra. É o último dos pais da antiguidade e o fundamento de toda a teologia latina da Idade Média. Nele convergem as principais correntes do pensamento antigo e dele fluem, não só a escolástica medieval, como também boa parte da teologia protestante do século XVI.
[10]

Após sua conversão a vida de Agostinho pode ser didivida em três fases: o trabalho de refutar o maniqueísmo, seus ataques aos donatistas e por fim a defesa da livre graça de Deus em resposta aos pelagianos. Seu labor literário foi permeado de controvérsias num esforço de preservar a fé cristã dos erros doutrinários do seu tempo.
Suas mais conhecidas obras são suas Confissões, que “veio a ser uma das autobiografias mais lidas e que mantém lugar entre os mais comoventes e profundos registros da alma humana e de suas lutas”,
[11] e Cidade de Deus, escrita como uma interpretação da história, sendo um dos seus principais objetivos defender o cristianismo da acusação de que este foi o responsável pela derrocada do Império Romano ao afastar os cidadãos do império do culto prestados aos ídolos. Agostinho morreu aos setentas e seis anos de idade, na cidade de Hipona. Seu legado extraordinário deve-se a grande fidelidade às Escrituras sagradas revelada na maior parte de sua obra, sua capacidade de responder às questões do seu tempo, a amplitude do corpo doutrinário de seus escritos; e, por fim, sua teologia forjada em meio a muita oração, busca de respostas e anseio por contemplar a beleza da verdade. E é sobre sua jornada espiritual e tudo o que ela representou para a história da espiritualidade cristã que passamos a ver agora.

UMA ANÁLISE DA DECLARAÇÃO CENTRAL DE AGOSTINHO NO SEU LIVRO CONFISSÕES

FIZESTE-NOS PARA TI: O PROPÓSITO DA VIDA HUMANA.

A certeza de que o homem foi criado para o seu criador foi algo determinante na vida de Agostinho mesmo antes de sua conversão. O que lhe faltava era afeto por Deus e poder para vencer os apelos da carne, em especial a sensualidade. Mas, a convicção de que este era o lugar para onde sua busca deveria convergir foi algo que se apoderou do seu espírito mesmo antes da sua adesão ao cristianismo. E tal pensamento exerceu tanta influência sobre sua vida cristã que podemos dizer que parte do conteúdo das suas Confissões visa defender a razão de ser desta verdade.
Para Agostinho Deus criou o homem para amar o seu criador e por isto este ordena que o homem o ame. A maior de todas as tragédias é o ser humano não atingir este alvo: “Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes amar-te e, se eu não o fizer, te indignares e me ameaçares com imensas desventuras? Como se o não te amar fosse desgraça pequena!”[12] À luz de tudo aquilo que a Bíblia fala não poderia ser diferente. Amar a Deus é o principal mandamento porque além de ter criado tudo para si não há nada na vida que seja mais excelente, amável e digno do nosso amor do que Deus.
O homem deve amar a Deus por ser esta a vontade dele revelada na Escrituras, mas também porque fora dele a alma não encontra nada que possa de tal modo satisfazê-la como Deus: “Na verdade, esses bens inferiores também satisfazem, mas não como satisfaz o meu Deus, que tudo criou, pois nele o justo encontra alegria, e ele é a alegria dos homens de coração reto”.
[13] Este é um dos pontos centrais da análise que Agostinho faz da condição da alma humana. O homem vive num universo que por si só não o satisfaz. Sendo assim, nenhuma ciência que visa entender a alma humana haverá de conduzir o homem a verdadeira felicidade esquecendo-se desta verdade fundamental. Procurar resposta para a inquietude humana em qualquer outro lugar sem partir das relações do homem com seu Deus é administrar os sintomas sem tratar das causas da enfermidade.
Portanto, quando o homem não vive para o amor do seu criador tanto transgride a vontade de Deus quanto faz uma violência contra sua própria alma: “O bem que amais procede dele, mas só é bom e suave quando para ele é dirigido. Torna-se justamente amargo, porque, se abandonamos a Deus, torna-se injusto amar aquilo que dele deriva”.
[14] Deste modo é pecado amar qualquer coisa cujo vínculo não seja Deus.
O grande problema da alma humana é a criação de estratégias que visem levar o homem a procurar substitutos nos pecado para o vazio proveniente da ausência de Deus. O pecado passa a ser visto não apenas como um mal moral, mas como uma loucura na medida em que o mesmo não pode realizar o que promete:
A soberba quer imitar a grandeza, enquanto somente tu és o Deus altíssimo que estás sobre todas as coisas. E a ambição, o que procura senão honras e glórias, enquanto somente tu és digno de ser honrado e glorificado eternamente? A crueldade dos poderosos deseja ser temida; mas, quem deve ser temido, senão tu, meu Deus? Ao teu domínio nada pode fugir: quem o poderia fazer, e como, e quando? Os carinhos dos voluptuosos buscam a reciprocidade do amor, mas nada é mais acariciante do que a tua caridade, e nada mais salutar para ser amado, que a tua verdade, a mais bela e replandecente de todas as coisas.
[15]

Deste modo, descobrimos que não se combate o pecado apenas revelando-o como um mal moral, mas como loucura. Um péssimo substitutivo para aquilo de que de fato o coração humano carece. “É assim que o homem peca, quando se afasta de ti e busca fora de ti a pureza e a limpidez, que ele não pode encontrar senão voltando para ti”.
[16]
Agostinho vê o homem como um ser constitucionalmente atraído pela beleza. E não há beleza maior do que a de Deus: “Todas as obras saídas de tuas mãos são belas, e tu, que as criaste, és indizivelmente mais belo”.[17] O belo ocupa lugar central na sua vida espiritual: “Eu quero a ti, ó justiça, ó inocência, ó beleza que atrai o olhar dos virtuosos, que em ti se satisfazem sem jamais se saciar”.[18] Ele se dirigia a Deus chamando-o de “beleza das belezas”.[19] Embora admita que houve um tempo em sua vida que julgava que a garantia de um prazer corporal perpétuo poderia satisfazer-lhe a alma, foi levado ao entendimento que a beleza de Deus proporciona prazer insuperável ao coração humano sendo esta beleza desejável por si mesma:
E me indagava: se fôssemos imortais e vivêssemos num perpétuo prazer do corpo, sem temor de perdê-lo, por que não seríamos felizes? Que coisa seria preciso procurar? Eu não estava percebendo que nisso consistia a minha miséria. Imerso no vício e cego como estava, não conseguia pensar no esplendor da luz e da beleza, desejáveis por si mesmas, invisíveis aos olhos do corpo e só percebidas no íntimo da alma.
[20]

Seguindo uma linha de pensamento muito parecida com a de Anselmo no seu clássico argumento ontológico
[21], Agostinho diz:
De fato, nenhum espírito pôde ou poderá jamais imaginar algo melhor que tu, supremo e perfeito bem. Sendo absolutamente certo e verdadeiro que o incorruptível é preferível ao corruptível (como eu já admitia), eu poderia, caso não fosses incorruptível, atingir com o pensamento algo mais perfeito do que o meu Deus.
[22]

Para Anselmo é impossível que Deus não exista e para Agostinho é impossível que Deus seja corruptível, pois para ambos caso assim fosse possível com o pensamento atingiríamos algo mais perfeito do que Deus, o que é absurdo.
A incalculável alegria que experimenta aquele que encontra a Deus é a outra razão apresentada por Agostinho pela qual o homem foi criado para Deus:
Em nehuma dessas realidades que percorro, e sobre as quais te consulto, encontro lugar seguro para a minha alma, senão em ti. Somente em ti posso reunir todos os pensamentos dispersos, e nada de mim se afasta de ti. E tu às vezes me introduzes num sentimento interior totalmente desconhecido, inexplicavelmente doce; tal sentimento, se atingisse dentro de mim a plenitude, tornar-se-ia algo certamente não pertencente a esta vida.
[23]

Provar desta alegria em Deus era a força motriz do viver de Agostinho: “É esta a minha esperança, pela qual vivo: que eu contemple as delícias de Deus”.
[24] Deus é o grande prazer do homem santo: “De fato, tu és as delícias vitais de um coração puro”.[25]
O conhecimento de Deus para Agostinho, portanto, se constituía na forma mais gloriosa e compensadora de conhecimento:
Senhor, Deus da verdade, será suficiente conhecer estas coisas para te agradar? Infeliz o homem que conhece tudo isso e não te conhece. Feliz aquele que te conhece, ainda que ignore o resto. Aquele que te conhece a ti e também as outras coisas, não é mais feliz por este conhecimento, mas somente por conhecer a ti, e conhecendo-te, te glorifica pelo que és, e te rende graças, e não se perde em vãs relfexões...a pessoa de fé possui todas as riquezas do mundo e, mesmo que nada tenha, é como quem tudo possui, pois está unida a ti, Senhor de todas as coisas, pouco importando se nada sabe sobre o percurso da Ursa Maior!
[26]

Uma fato que merece destaque na teologia de Agostinho é a doutrina da felicidade de Deus: “...somente tu, o único ser simples, aquele que não possui outra vida, senão a vida feliz, porque tu és a tua própria felicidade”.
[27] Vemos ecos desta doutrina em Jonathan Edwards: “Deus é um ser perfeitamente feliz, no mais absoluto e mais alto senso possível”. Como ressalta o teólogo americano John Gerstner:
Edwards argumenta que se Deus se deleita em contemplar a beleza, Ele deve ser infinitamente feliz porque Ele contempla a si mesmo. Ele é de fato a fonte de toda a felicidade. Embora a maneira da felicidade de Deus seja essencialmente incompreensivel, a Bïblia indica que ela consiste em amor. A Trindade tem um eterno prazer em cada outro. Se Deus fosse infinito sem ser bom, talves Ele pudesse não ser feliz. Se Ele fosse bom sem ser infinito, quase certamente Ele não poderia ser feliz. Mas a bem-aventurança de Deus é que Ele é o que que quer ser. Ele é infinitamente santo e santamente infinito.
[28]

O Deus de Agostinho é feliz e da sua plenitude de felicidade fluem sua criação e todas as bênçãos que derrama sobre ela, em especial o homem. O amor deste Deus feliz pelo homem o deixava estupefato: “Eis que agora existo, graças à tua bondade, que precedeu tudo aquilo que sou e de onde fui criado. Não tinhas necessidade de mim, e eu não sou um bem de quem possas receber auxílio, meu Senhor e meu Deus”.
[29]

INQUIETO ESTÁ O NOSSO CORAÇÃO: O DESASSOGO DA ALMA HUMANA.

Poucos autores foram tão capazes de apresentar a miséria da vida humana longe da comunhão com Deus como Agostinho. Nele vemos uma cristão falando como um existencialista atormentado. Ele não deixa escolha. Ou o homem se rende ao seu criador realcionando-se com ele em amor ou viverá em estado de ininterrupta inquietação que haverá de jogar fel até nos seus maiores prazeres. Em que consiste o desespero humano para Agostinho?
Agostinho pensava na vida de pecado como algo profundamente desgastante. Esta é uma das tragédias de uma vida gasta longe de Deus. Os dons de Deus se corrompem no homem. O que tem lhe é tirado: “Desde a adolescência, ardi em desejos de me satisfazer em coisas baixas, ousando entregar-me como animal a vários e teneborsos amores! Desgastou-se a beleza da minha alma e apodreci aos teus olhos”.[30] Esta vida caracterizada pela satisfação dos desejos pecaminosos, portanto, era vista por Agostinho como mais digna de misericórdia do que a vida de alguém privado de algum prazer pecaminoso. Ele diria que o mais infeliz é aquele que não percebe sua infelicidade: “Mas, atualmente tenho mais compaixão do homem que se alegra no vício, do que pena de quem sofre a privação de um prazer funesto e a perda de uma felicidade ilusória”.[31]
A desgraça de uma vida em pecado para Agostinho consistia no fato de que o pecador age contra sua natureza conforme criada à imagem e semelhança de Deus, e como se não bastasse isso torna-se passível do justo juízo de Deus:
Mas que ações pecaminosas podem atingir-te, ó Deus, se és incorruptível? Que delitos te ofendem se é impossível fazer-te mal? Castigas as culpas que os homens cometem contra si mesmos, porque, mesmo quando pecam contra ti, fazem mal à sua própria alma, e a sua iniquidade se engana a si mesma, destruindo e pervertendo a própria natureza que criaste e ordenaste, quer servindo-se imoderadamente das coisas lícitas, quer desejando ardentemente as ilícitas, mediante uso contrário à natureza.
[32]

O amor a Deus é substituído na vida do homem que não o ama pelo amor ao que é mortal levando esta fixação enganosa dos afetos à uma insatisfação e ansiedade sem fim: “Eu era infeliz, como infeliz é todo espírito subjugado pelo amor às coisas mortais, cuja perda o dilacera, e então deixa perceber a extensão da infelicidade que já o oprimia antes de perdê-las”.
[33] Quando a alma decide fixar-se a qualquer coisa que não seja o Deus imutável terá forçosamente de procurar descanso naquilo que se corrompe e tende para o não ser:
Para qualquer parte que se volte a alma humana, se não se fixa em ti, se agarra à dor, ainda que se detenha nas belezas que estão fora de ti e fora de si mesma. Estas nada teriam de belo, se não proviessem de ti. Nascem e morrem: nascendo, começam a existir e a crescer para chegar à maturidade; porém, uma vez maduras, decaem e morrem. Nem tudo envelhece, mas tudo morre. Portanto, no exato momento em que nascem e começam a existir, quanto mais rapidamente crescem para o ser, tanto mais correm para o não ser.
[34]

Em que consiste a tragédia de se viver assim? Consiste no fato de que a alma deseja repousar no objeto que ama. Mas, fora Deus tudo é instável: “...o desejo da alma é existir e repousar no objeto que ama. Mas ela não encontra lugar de repouso nas coisas, porque não são estáveis: fogem”.
[35]
Agostinho sabia por experiência própria que a felicidade sem Deus é fugidia: “Se me sorria um momento de felicidade, hesitava em segurá-lo, pois estava conscio de que voaria antes mesmo que eu o alcancásse”.[36] O sentimento na opinião de Agostinho que caracteriza a vida longe de Deus é a ansiedade:
Na adversidade desejo a prosperidade, e na prosperidade temo a adversidade. Haverá entre esses dois extremos um estado intermediário, onde a vida humana não seja uma tentação? Execráveis as prosperidades do mundo, duas vezes execráveis, seja pelo temor da adversidade, seja pela corrupção da alegria!
[37]

A dura realidade da morte também fazia parte da lista de coisas que tornam a vida do homem um verdadeiro inferno: “A vida é infelicidade, a hora da morte é incerta. Esta surge de repente: e eu, em que condições deixarei este mundo? Onde poderei aprender o que nesta vida negligenciei saber? Não terei antes que pagar com duras penas essa negligência?”
[38] Foi Pascal que tempos depois descreveu a condição humana em termos bastante parecidos:
Imagine-se uma porção de homens na cadeia todos condenados à morte: uns são diariamente degolados à vista dos outros, enquanto os que ficam vêem a sua própria condição na dos seus semelhantes e, entreolhando-se com dor e sem esperança, esperam a sua vez. É a imagem da condição dos homens.
[39]

ENQUANTO NÃO DESCANSA EM TI: O ÚNICO LUGAR DE REPOUSO DA ALMA.

Em Agostinho o homem emerge do desespero mais profundo a fim de provar de uma alegria inimaginável para aqueles que não conhecem o Deus cristão. A alma pode repousar no Deus que põe fel nos nossos prazeres a fim de nos trazer de volta para si. O que há de especial nas suas Confissões é que a partir da sua jornada espiritual e Escrituras Sagradas Agostinho mostra o caminho do repouso em Deus. O que é necessário para que a alma prove deste repouso?
No espírito do Novo Testamento Agostinho afirma que quem procura Deus o encontra: “Quem o procura encontra, e, tendo-o encontrado, o louvará. Que eu te busque, Senhor, invocando-te; e que eu te invoque, crendo em ti: tu nos foste anunciado”.[40]
Agostinho destaca a graça soberana de Deus em atrair de modo irresitível para si aqueles que dentre a raça humana caída foram separados para a eterna redenção. É Deus que quebra o poder do mal no coração do homem, dá vida à alma e cria uma nova sensibilidade para os prazeres divinais: “Os ouvidos do meu coração estão diante de ti, Senhor; abre-os e dize à minha alma: eu sou a tua salvação. Correrei atrás destas palavras e te segurarei. Não escondas de mim a tua face: que eu morra para contemplá-la e para não morrer”.[41] Em suma, para Agostinho sem a graça preveniente de Deus não há salvação:
Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.
[42]

O texto clássico nas Confissões sobre a soberania de Deus na obra de mudança das disposições da alma humana revela o quanto para Agostinho a graça antecede a conversão: “Ó amor, que sempre ardes e não te extingues jamais! Ó caridade, meu Deus, inflama-me! Tu me ordenas a continência: concede-me o que me ordenas, e ordena o que quiseres”.
[43]
Sem um coração humilde não há esperança para o homem. O outro caminho que Agostinho aponta para aqueles que querem conhecer a Deus é o caminho da humildade. Esta humildade precisa ser intelectual: “Que posso fazer, se alguém não compreende? Que exulte, dizendo: que mistério é este? Que exulte e prefira encontrar-te, não te compreendendo, a não te encontrar, compreendendo”.[44] Humildade moral também é necessária: “Quero recordar as minhas torpezas passadas, as corrupções de minha alma, não porque as ame, ao contrário, para te amar, ó meu Deus”.[45] As portas do reino de Deus se abrem de par em par para aqueles que pela graça divina se aproximam do seu criador em arrependimento e fé: “Que há mais próximo de teus ouvidos que um coração arrependido e uma vida de fé?”[46] As Escrituras haverão de ser sempre um enigma para quem é soberbo: “resolvi por isso dedicar-me ao estudo das Escrituras Sagradas, para conhecê-las. E encontrei um livro que não se abre aos soberbos”.[47]
A Bíblia é outro recurso da misericórdia de Deus para a vida de todo aquele que quer aprender a repousar em Deus. Sua própria experiência de conversão prova este fato. Os salmos do Antigo Testamento muito o ajudaram também: “Quantas exclamações me inspiravam a leitura desses salmos, e como eles me inflamavam no teu amor!”[48] Para Agostinho a excelencia da Bíblia é uma das provas da sua inspiração divina:
Não conhecemos outros livros que tão eficazmente destruam a soberba e abatam o inimigo, o defensor que resiste a idéia de reconciliar-se contigo, defendendo os próprios pecados. Não conheço, Senhor, não conheço palavras tão puras, que tanto me induzissem a confessar-te, a tomar sobre minha cabeça o teu jugo, que me convidassem a prestar-te tão desinteressado culto.
[49]

Para Agostinho outro motivo de esperança é a proximidade de Deus: “Porque não é caminhando nem atravessando espaços que de ti nos afastamos ou a ti retornamos”.
[50] Deus está mais próximo de nós do que aquele que nos é mais íntimo: “...a ti que tiveste compaixão de mim quando eu ainda não te conhecia. Tu estavas mais dentro de mim do que a minha parte mais íntima”.[51]
Deus é visto por Agostinho como aquele que pela sua providência atrai o homem para si. Discernir estes sinais da providência é fundamental:
Sempre estavas presente em tua severa misericórdia, entremeando de amargos desgostos os meus prazeres ilícitos, a fim de que eu aprendesse a procurar alegria sem ofender-te. Se eu tivesse encontrado, só teria encontrado a ti, Senhor, que nos dás a dor como preceito, que feres para curar e nos tiras a vida para não morrermos longe de ti.
[52]

Para Agostinho uma grande expressão do amor providencial de Deus é a experiência vivida por muitos de experimentar tristeza no prazer: “Deus meu, misericórdia minha, como foste bom em derramar tanto fel sobre meus prazeres”.
[53] Numa outra passagem fala no mesmo tom: “Eu aspirava às honras, à riqueza, ao matrimônio, e tu rias de mim. Nesses desejos amargos eu sofria dissabores, e tu me querias tanto mais bem quanto menos consentias que eu experimentasse consolação naquilo que não eras tu”.[54]
Um profundo senso de completa dependência de Deus é fundamental também:
Ai do homem temerário que, afastando-se de ti, pensa encontrar algo bem melhor! Quer se volte ou revire para trás, para os lados ou para frente, todas as posições lhe são incômodas, pois só em ti acha tranquildade.
[55]

Esta dependência de Deus deve ser vista de igual modo do ponto de vista moral. Agostinho lançou-se completamente nesta misericórdia: “Senhor meu Deus, a quem todos os dias a minha consciência se confessa, mais confiante na tua misericórdia do que na sua inocência”.
[56]
A graça perdoadora enche seu coraçào da certeza de que o repouso em Deus é possível: “Sei que, pela tua graça e misericórdia, meus pecados se desfizeram como gelo ao sol; devo à tua graça também todo o mal que não pratiquei”.[57]
Nas Confissões vemos uma grande preocupação em se fazer uma separação entre o conhecimento especulativo de Deus e o conhecimento do coração. É importante aquele que procura descanso em Deus saber que conhecer teologia não implica em conhecer a Deus:
Dizem muitas verdades sobre as criaturas, e não buscam devotamente a verdade, artífice da criação; assim, não a encontram, ou, se a encontram, embora conhecendo a Deus, não lhe prestam honra como a Deus, nem lhe rendem graças.
[58]

E o que a alma prova quando encontra o Deus a quem procura? Após o exame do que a alma que procura descanso em Deus deve crer e fazer é oportuno que saibamos o que o coração humano experimenta quando tem um encontro com Deus. Para Agostinho a alma prova de um repouso imperturbável: “O lugar do repouso imperturbável está onde não se renuncia ao amor, se este não recua”.
[59]
O gozo proveniente da contemplação do plano da salvação é outra fonte de prazer na vida do crente: “Nesses dias, não me saciava a maravilhosa doçura de considerar a grandeza de teus desígnios para a salvação da humanidade. Quantas lágrimas verti, de profunda comoção, ao mavioso ressoar de teus hinos e cânticos em tua igreja!”[60]
O prazer de só encontrar felicidade em Deus é outra consequencia que o comovia. Encontrar felicidade no que é por si mesmo amável e que não se perde nunca:
Longe de mim, Senhor, longe do coração do teu servo, que se confessa diante de ti, longe o pensamento de que uma alegria qualquer possa torná-lo feliz. Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor: essa alegria és tu mesmo. E esta é a felicidade: alegrar-nos em ti, de ti e por ti.
[61]

A cruz vem a se constituir no grande motivo de encanto, admiraçào e louvor do coração de Agostinho. O seu Deus manifestou seu amor na história: “Quanto nos amaste, ó Pai bondoso, a ponto de não poupares teu Filho unigênito, entregando-o por nós nas mãos de ímpios! Quanto nos amaste!”.
[62] Esta é a alegria dos redimidos. Em Deus a alma humana pode repousar.

O IMPACTO DAS CONFISSÕES NA HISTÓRIA DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ.

Fazer um apanhado da influência das Confissões na história subsequente do cristianismo é tarefa muito acima do escopo deste trabalho. Trata-se de algo muito vasto. Sua influência é claramente sentida na vida espiritual e teologia de todos os gigantes após ele. Em especial, Tomás de Aquino, Lutero e Calvino.
A influência de Agostinho em Tomás de Aquino é tamanha que uma simples leitura da sua Suma Teológica passa-nos a idéia de que o que este fez foi somente comentar os textos das Escrituras e os de Agostinho. A dívida de um para com o outro é clara em passagens como estas:
A bem-aventurança é o fim último da criatura racional. Ora, ser fim último da criatura racional só convém a Deus. logo, só Deus é a bem-aventurança dos bem-aventurados...só Deus é a bem-aventurança, porque só é bem-aventurado alguém que conheça Deus, conforme as palavras de Agostinho: ‘Bem-aventurado aquele que te conhece, ainda que ignore tudo o mais’.[63]

O impacto das obras de Agostinho na vida dos reformadores é tão claro que podemos dizer que as obras de homens como Lutero e Calvino foram um reavivamento Agostiniano. Destacando a influência de Agostinho em Lutero Marc Lienhard afirma: “Lutero reportou-se a Santo Agostinho para afirmar que ‘o ser humano, sendo árvore má, não pode senão querer e fazer o mal’. ‘Ele não é livre, e sim cativo’. Amar a Deus, por natureza, sobre todas as coisas, é uma ficção, uma quimera, por assim dizer’.
[64] Em que Agostinho especialmente influenciou Lutero? Liehard responde fazendo os seguintes comentários: “De santo Agostinho Lutero reteria sobretudo os escritos antipelagianos... Com Santo Agostinho, Lutero falará de uma verdadeira corrupção do ser humano... Descobriu em Santo Agostinho o hino à potência plena da graça”.[65]
Na vida de João Calvino a influência da espiritualidade agostiniana faz-se sentir na seguinte afirmação:
Destarte, também a nós se nos impõe aplicarmo-nos a essa investigação de Deus, uma investigação que de tal modo nos mantenha o espírito supenso de admiração, que, ao mesmo tempo, com eficaz sentimento ao fundo nos toque. E como, em certo lugar, ensina Agostinho, já que, como se a desfalecer sob a Sua grandeza, não o podemos apreender, convém lhe atentemos às obras, para que nos refaçamos em Sua bondade.
[66]

Em certos autores a semelhança entre o que falaram e Agostinho falou é tamanha que somos levados a dizer que tiveram este como fonte de seus esccritos embora não possamos prová-lo. Veja por exemplo o caso de Pascal que demonstra de forma explícita em sua mais famosa obra haver recebido a influência de Agostinho e que numa citação onde embora não mencione o nome deste deixa claro a marca de Agostinho em seu pensamento: “O Deus dos cristãos é um Deus que faz sentir à alma que ele é o seu único bem; que todo o seu repouso está nele; que não terá alegria senão em amá-lo”.
[67] Sobre o estado de infelicidade da alma humana longe daquele que a criou ele diz: “Somos incapazes de não desejar a verdade e a felicidade, e somos incapazes tanto de certeza como de felicidade”. [68] Num outro contexto afirma: “Procura-se o repouso combatendo alguns obstáculos; e, vencidos estes, o repouso se torna insuportável”.[69]
A influência do que Agostinho ensinou na sua mais famosa obra é claramente sentida na vida de muitos autores dos séculos XX e XXI. R.C. Sproul citando a famosa declaração de Agostinho comenta: “Estas linhas imortais da lavra de Aurelius Augustine captam os sentimentos mais profundos de cada cristão”.
[70]
Alistar McGrath reconhece a influência do conceito de beleza de Agostinho na obra de C.S. Lewis:
Há alguma coisa auto-destruidora no desejo humano, na qual o que é desejado quando realizado, parece levar para um desejo insatisfeito. Lewis ilustra isto a partir da velha busca pela beleza, usando reconhecidamente o imaginário Agostiniano.
[71]

E de fato podemos ver uma clara conexão de idéias:
Os livros ou a música em que nos parecia morar a beleza vão trair-nos se neles confiarmos; ela não estava neles, apenas nos vinah por intermédio deles, e o que nos vinha era uma grande saudade. Tudo isso, a beleza, a memória do nosso passado, são belas imagens do que realmente desejamos. Mas quando confundidos com a coisa em si, transformam-se em ídolos mudos e despedaçam o coração de quem os adora. Porque eles não são a coisa propriamente dita; são apenas o aroma de uma flor que não encontramos, o eco de uma melodia que não ouvimos, notícias de uma país que nucna visitamos.
[72]

John Piper ressalta o fato de que aprendeu como amar a Deus de modo especial mediante Agostinho: “Agostinho orou com as seguintes palavras, que provaram ser imensamente importantes em meus esforços de amar a Deus com todo o meu coração: ‘pouco te ama aquele que ao mesmo tempo ama outra criatura, sem amá-la por tua causa”.
[73]
Richard Foster descreve em termos Agostinianos as características constitucionais do homem e como este de modo distorcido procura na criação o que só pode encontrar em Deus:
Porque nós fomos selados com a imagem de Deus, nós ansiamos pelo bem, a verdade, a beleza. Porque nós vivemos num mundo bom que se tornou mau, nós desejamos as distorções da boa criação de Deus. Nós tentamos com toda a força da vontade buscar o bem, mas nós falhamos, sempre falhamos, porque a vontade está em conflito consigo mesma e em necessidade de redenção. Simplesmente pensar bons pensamentos ou desejar boas coisas não é suficiente. Nós precisamos, como Agostinho e Paulo antes dele, do poder transformador do Cristo vivo e presente entre nós. Assim nossas vontades conflitantes podem vir a estar sob a regra do Árbitro divino.
[74]

Grande influência é sentida também na vida do filósofo católico francês Jean Guiton. Este fala sobre a verdade de um modo muito semelhante ao de Agostinho. A verdade existe e é eterna. Podemos começar a tomar consciência da sua existência à partir da dúvida de tudo o que nos cerca que só não nos permite negar a verdade de que duvidamos. Logo, é possível ter-se certeza na vida. A grande bênção da vida é não parar aí, mas ir adiante como quem sabe que perante a verdade não basta sobre ela pensar, mas segui-la:
Sou um velho platonista cristão, um agostiniano, como se diz. Começo a ficar mais ou menos cético, como todo mundo. Depois, compreendo que isso não dá, que existem verdades, especialmente o eu penso, eu sou, eu vivo, e as matemáticas, e a biologia etc. Se existem verdades fundadas, há um critério absoluto e um fundamento radical dessas verdades. Existe, portanto, uma verdade primeira e absoluta. Ser um espírito é viver no seio dessa Verdade, sob a luz desta Verdade, no caminho que é um movimento eterno em direção a essa verdade. Mas aquilo que não é verdadeiro não é. A verdade é o ser verdadeiro. Portanto, essa Verdade primeira é o próprio Ser. E ela é eterna. Tudo isso é evidente.
[75]

E numa passagem bem agostiniana, Guiton junta duas coisas que Agostinho amava acima de tudo: a mulher e Deus: “Não há nada mais belo, aqui em baixo, do que a beleza de uma mulher. Mas, subtraia o desejo de absoluto, subtraia a sede de infinito,o amor não passa de fisiologia”.
[76]
John Stott fala em termos claramente agostinianos ao enfatizar o papel do amor na vida humana:
É no amor que nos encontramos e nos realizamos. Além do mais, não é precismo ir muito longe para buscar a razào para isso. É porque Deus é amor em sua essência, de tal forma que, quando le nos criou à sua própria imagem, deu-nos a capacidade de amar assim como ele ama. Não é à toa, portanto, que os dois grandes mandamentos de Deus são amá-lo e amar uns aous outros, pois esse é o nosso destino. Uma existência verdadeiramente humana é impossível sem amor. Viver é amar, e sem amor nós murchamos e morremos. Como expressou Robert Southwelll: ‘Não quando eu respiro, mas quando eu amo, aí é que eu vivo’. Ele provavelmente estava fazendo eco à observação de Agostinho, de que a alma vive onde ela ama, não onde ela existe.
[77]

Claudio Moreschini e Enrico Norelli reconhecem a singularidade e intensidade de tudo aquilo que Agostinho escreveu sobre a vida, o homem e Deus:
Deus...não é o Deus dos filósofos, idealizado por eles como absolutamente transcendente, de modo que o homem é incapaz de imaginá-lo: ao contrário, é tão presente e pessoal que o coração do homem fica inquieto enquanto não encontra paz nele. É a característica das Confissões, como de Agostinho em geral, a introspeção psicológica em busca dos movimentos irracionais e inexplicáveis da mente, introspecção dirigida não apenas a si mesmo, mas a todos. Nenhum escritor cristão possui este Dom com tanto refinamento...
[78]

Agostinho fez teologia de uma tal forma que ninguém ao ler suas obras deixa de levar consigo a impressão de que teologia nunca deve ser algo apenas sobre o que pensar, mas sobre o que confessar. Teologia é diálogo com Deus, culto e desejo ardente de se conhecer a verdade não apenas pensando, mas orando. Por isto sua larga influência na história do cristianismo subsequente.

CONCLUSÃO
Agostinho revela nas suas confissões uma padrão Neo-testamentário de conversão. Sua conversão veio acompanhada de mudanças operadas na sua mente, afeições e vontade. Agostinho buscou a verdade. E não se satisfez enquanto não a encontrou. E só parou de procurá-la quando viu uma base adequada para ela. Sua conversão foi resultado de convencimento intectual.
A conversão de Agostinho, contudo, afetou suas afeições também. Nele encontramos uma mente iluminada acompanhada de um coração aquecido. Era para ele impossível pensar sobre Deus de um modo não passional. Suas reflexões estão entremeadas de orações, louvores e encanto. Ninguém lê suas Confissões e fica com a impressão que quem as escreveu não estava relacionado intimamente com o que escrevia.
Merece destaque o fato de todo o curso da sua vida foi alterado também. Um outro padrão do NovoTestamento para conversão é visto em Agostinho. Que padrão é este? A árvore boa dá inevitavelmente bom fruto. Jamais leríamos suas Confissões com admiração se Agostinho, por exemplo, continuasse na vida de impureza sexual que vivia. Ao abrir mao de prazer que lhe era tão caro por julgá-lo incompatível com o prazer maior de se deliciar em Deus Agostinho seguiu o modelo dos evangelhos.
Fica para teólogos e pastores a mensagem de que não podemos fazer teologia de modo diferente. Aí está algo sobre o qual não se deve falar sem estar envolvido com todo o ser. A linguagem tem que ser digna da majestade do tema. Não se deve escreve sobre assuntos tão excelsos sem antes orar com fervor, pois a porta da verdade não se abre para os auto-suficientes. Por fim, conversão que não alcance a mente, as afeições e a vontade não é conversão agostiniana e muito menos bíblica. Isto deve ser pregado e ensinado.
Os que dizem fazer trabalho psicológico profundo, como a psicanálise que tanto fala sobre os desejos (pulsões) inconscientes, deveriam ser mais coerentes e descer para os níveis em que Agostinho desceu. Nesta descida para os porões do inconsciente o que esperamos encontrar? O que subjaz à todo desajuste, anseio irreprimível e neurose? Não seria a ausência daquele sem o qual a alma humana nunca se satisfaz? Qual deve se o alvo da terapia, então? Para onde se espera conduzir o paciente? E quando ele falar sobre um anseio por algo que nada na vida satisfaz e que o leva a se comportar de uma forma contrária ao superego? Vamos dizer para ele que tudo se resume as pulsões sexuais conforme experimentadas à partir da primeira infância? O que Agostinho diria é que o homem continuará infeliz e neurótico enquanto não repousar em Deus.
Há uma mensagem para os cidadãos em geral deste século também. Estamos correndo tanto atrás do que? O que adianta conhecermos o “curso da Ursa Maior” se não sabemos quem somos? O que nos leva a não termos tempo a fim de mergulharmos dentro de nós mesmos para emergimos como quem sabe que descobriu dentro de si uma sede por algo que não é desta vida? Vimos o Agostinho maniqueísta, cético, platônico e cristão. A alma atormentada em busca da verdade. O que nos impede de termos interesse pelo que de mais importante existe na vida?
Por último, descobrimos em Agostinho que ele encontrou no Deus cristão a satisfação de todos os seus anseios. Não é a fé em Deus que haverá de nos satisfazer, mas a fé no Deus de Agostinho, o Deus Trino, Pai, Filho e Espírito Santo, a “divina delícia” da alma de quem o conhece.
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[9] ibdem
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[11] Latourette, Kenneth Scott. Historia del cristianismo. Tomo I. Casa Batista de Publicaciones. 1976. P. 137
[12] Agostinho, Confissões. Edições Paulinas. São Paulo, 1986. P. 18

[13] ibdem
[14] ibdem.p. 94
[15] ibdem.p. 51
[16] ibdem. P. 52
[17] ibdem.p. 397
[18] ibdem.p. 55
[19] ibdem.p.55
[20] ibdem.p.155
[21] Copleston, Frederick. A History of philosophy. Image Books. New York, 1993.p.161-164. “Se este ser tivesse apenas uma realidade ideal, existisse apenas em nossa idéia subjetiva, nós ainda poderíamos conceber um ser maior, um ser que não existisse apenas em nossa idéia, mas com uma realidade objetiva. Segue-se, portanto, que a idéia de Deus como peerfeição absoluta é necessariamente a idéia de um ser existente, e santo Anselmo defende que ninguém pode ter ao mesmo tempo a idéia de Deus e ainda negar sua existência.
[22] ibdem.p.163
[23] ibdem.p. 298.
[24] Ibdem.p. 325.
[25] Ibdem.p. 398.
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[31] ibdem.p.61
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[53] Ibdem.p.59
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[55] ibdem.p.155
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[57] Ibdem.p.53
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[59] ibdem.p.93
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[78] Moreschini, Claudio e Norelli, Enrico. História da literatura cristã antiga grega e latina. Edições Loyola. São Paulo, 2000.p.36

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